«Descobri que estava morto» J. P. Cuenca :: Opinião

“A franqueza é a primeira virtude de um defunto.” Brás Cuba
Quando terminei «Descobri que estava morto» do Cuenca pensei: “é muito frontal com fanta”. E é bem verdade se o ligar ao desejo de invisibilidade com o qual começa o livro, espelhando o trabalho de Oscar Munõz e a constante reconstrução do retrato.
«Descobri que estava morto» funciona como um epitáfio para um pseudo morto. Um ser transtornado, mas ainda muito consciente que, por entre ruas do Rio de Janeiro, faz um inventário de críticas à cidade em ambiente pré-olímpico. Com a geografia de road book, revela-nos quem queria fugir mas ter quem lhe sentisse a falta.
Este é um livro pejado de pérolas.
Aquele que se vai apagando nesta história é dado a reclamações e depressões, alimentava vagas de inquietação metafísicas e criava narradores desafinados e donos de platitudes já gastas. Com apurada vocação para a tristeza, herdada desde o cordão umbilical, e ampliada por algum misantropismo, altera períodos de fanfarronice com outros mais atávicos e delirantes.
Cuenca traz novamente à acção Tomás Anselmo e é com ele, numa espécie desolidariedade postiça masculina que arregaça as gengivas e combate a letargia de querer estar morto. No entretanto, cutuca o excesso de orgulho do brasileiro em espírito de olimpíada, apontando o dedo à cidade neo-pacificada, mas sem se excluir, o que torna ainda mais esquizofrénica e divertida a sua análise.
Os anos avançam, a política e os melhoramentos na cidade também, mas nada de muito profundo que quebre a esculhambação típica do brasileiro e ele, na sua recém conquistada solidão dá passos, pequenos e pouco firmes na direcção de resolver o mistério da sua morte fictícia. O vício no circo portátil do hedonismo que o persegue apodera-se cada vez mais, patrocinando a sua enclausura e abandono, apelidada pelo próprio de procrastinação masturbatória e inútil, aumentando assim a certeza de que é uma fraude, tal como o Rio pré olímpico que o acolhe.
A fatídica prosperidade que afecta a sua cidade traz um equilíbrio frágil e até pernicioso, uma espécie de imunidade que vai talhando a bolha de delírio em torno da sua literatura e o faz questionar tudo.
“Como o que eu realmente desejava era destruir tudo e não criar porra nenhuma, todas as minhas escolhas pareciam me levar para longe de onde eu devia estar. Para longe do lugar correto. Todos os caminhos, uma vez que eu os pisava, transformavam-se em desvios.”
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