Desgraça – J. M. Coetzee (Prémio Nobel de Literatura 2003)

Desgraça - J. M. CoetzeePublicado em 1999, Desgraça do sul africano J. M. Coetzee (Prémio Nobel de Literatura em 2003) apresenta-nos uma história desconcertante e não menos perturbadora, reflexo das mudanças políticas decorrentes na África do Sul tendo um forte impacto nas estruturas económicas, sociais e culturais transformando a África do Sul num país com uma complexidade ainda maior atendendo à sua história recente e ainda como tentativa de superar clivagens entre os vários grupos sociais existentes.

Tendo David Lurie como figura central desta história, a sua vida muda radicalmente em escassas semanas sendo obrigado a olhar para os outros perante a evidência de determinados acontecimentos que o marcaram profundamente. Com 52 anos, David Lurie é uma pessoa extremamente egocêntrica e tendo tido dois casamentos desfeitos, para ele a busca incessante do prazer pelo prazer como forma atenuante do processo de envelhecimento fê-lo envolver-se em situações pouco simpáticas ficando exposto à opinião pública, assim como ao afastamento do seu cargo de professor universitário após ter sido denunciado por se ter envolvido com uma aluna trinta anos mais nova.

Da Cidade do Cabo, David Lurie decide passar uma temporada numa zona rural onde vive a sua filha Lucy. Aí têm lugar outros acontecimentos que conduzem a uma mudança radical da sua vida, assim como da vida de Lucy e, num sentido mais abrangente, correspondem aos ajustamentos dentro e à margem da lei que procuram estabelecer uma ordem social totalmente desconexa com fissuras que deixam dano, mas que é a forma, longe de ser a ideal, de procurar a unidade no caos.

Onde está o sentido de justiça? Quem nos socorre quando mais precisamos? Quem julga os culpados? Quem são os culpados? Que é feito da estrutura do Estado para prestar apoio em situações de crime do mais vil e atroz que pode existir? Não há culpados. Todos somos culpados.

Nos momentos mais dilacerantes e de maior tensão da trama, quando julgamos que a única saída é a prática da justiça com as próprias mãos, eis que a razão fala mais alto, surgindo no meio de tanta irracionalidade tentando apanhar as pontas soltas e desfeitas na busca da unidade por um bem maior que é o bem comum e a convivência apaziguada para um viver que se pretende mais sereno.

Desgraça apresenta-nos um David Lurie cuja vida se assemelha em certa medida à de Job do Velho Testamento que tudo aguentou, resignando-se o primeiro à vontade do destino cruel e o segundo à vontade de Deus, reconhecendo ambos que as sucessivas desgraças e períodos difíceis por que passaram quase até à morte seriam não só uma forma de castigo, mas simultaneamente a forma de começar do zero procurando novas perspetivas sobre a vida que se pretende que seja encarada com otimismo. Há que recomeçar por algum lado!

Excertos:

“- Sabe, David – diz Petrus enrugando a testa. – É grave aquilo que afirma, que aquele rapaz é um ladrão. Ele está muito zangado por lhe chamar ladrão. É isso que ele anda a dizer a toda a gente. E eu, eu é que tenho de manter a paz. Por isso também é grave para mim.

– Não pretendo implicá-lo neste caso, Petrus. Diga-me o nome do rapaz e onde mora, que eu passo a informação à polícia. Depois podemos deixar que a polícia investigue e o leve, assim como aos amigos, perante a justiça. Não será implicado, eu também não, será um assunto para a lei.

Petrus espreguiça-se, banhando o rosto no brilho do sol. – Mas o seguro vai dar-lhe um carro novo.

É uma pergunta? Uma afirmação? Qual é a jogada de Petrus? – O seguro não vai dar-me um carro novo – explica, tentando não perder a paciência. – Partindo do princípio de que já não está na bancarrota devido a todos os roubos de automóveis neste país, o seguro dar-me-á uma percentagem daquilo que pensa que o meu velho carro valia. Não será o suficiente para comprar um veículo novo. De qualquer forma, é uma questão de princípio. Não são as companhias de seguros que fazem justiça. Não é esse o seu negócio.

– Mas este rapaz não lhe pode devolver o carro. Ele não sabe onde está o seu carro. O seu carro desapareceu. O melhor é comprar outro carro com o dinheiro do seguro e assim já tem carro outra vez.

Como caiu neste beco sem saída? Tenta atacar por outra frente. – Petrus, permita-me que lhe pergunte, esse rapaz é da sua família?

– E por que razão – prossegue Petrus, ignorando a pergunta – pretende levar este rapaz à polícia? Ele é jovem de mais, não pode ser preso.

– Se tem dezoito anos pode ser julgado. Se tem dezasseis anos pode ser julgado.

– Não, não tem dezoito anos.

– Como sabe? A mim, parece-me ter dezoito anos, parece-me ter mais de dezoito anos.

– Eu sei, eu sei! Ele é apenas um garoto, não pode ir preso, é essa a lei, não se pode mandar um garoto para a prisão, tem de o deixar em paz!”  (p. 124)

J. M. Coetzee

“Quanto a Deus, eu não sou crente, por isso terei de traduzir aquilo a que chama Deus e aquilo que Deus deseja para a minha linguagem. Na minha linguagem estou a ser castigado por aquilo que aconteceu entre mim e a sua filha. Estou mergulhado num estado de desgraça do qual não será fácil sair. Não foi o castigo que eu recusei. Não me oponho a ele. Pelo contrário, vivo-o todos os dias, tentando aceitar a desgraça como o meu estado natural. Acha que será o suficiente para Deus que eu viva em desgraça para sempre?” (p. 154)

“- Vai ter com o Petrus – diz. – E propõe-lhe o seguinte. Diz-lhe que aceito que me proteja. Diz-lhe que ele pode inventar a história que quiser acerca da nossa relação que eu não o desdigo. Se quiser que pensem que sou a sua terceira mulher, tudo bem. Se quiser que pensem que sou a sua concubina, tudo bem. Mas depois a criança passa a ser dele também. A criança passa a ser parte da família dele. Quanto à terra, diz-lhe que passo a terra para o nome dele desde que a casa continue a ser minha. Serei uma inquilina na terra dele.”

(…)

– Que humilhação – diz, por fim. – Tantas esperanças e acabar assim.

– Sim, concordo, é humilhante. Mas talvez seja um bom novo ponto de partida. Talvez seja isso que eu tenho de aprender a aceitar. Começar do zero. Sem nada. Não com alguma coisa. Sem nada. Sem cartas, sem armas, sem propriedade, sem direitos, sem dignidade.

– Como um cão.

– Sim, como um cão.” (p. 182)

“Uma pessoa habitua-se a que as coisas fiquem mais difíceis; uma pessoa deixa de se surpreender que as coisas extremamente difíceis fiquem ainda mais difíceis.” (p. 196)

 

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