“Um almoço de negócios em Sintra”, de Gerrit Komrij

sintra_KomrijConfesso-me rendida a este livro que, de uma forma magnífica, faz um retrato, ora solene, ora ridículo, ora sentimental ora frio de Portugal e dos portugueses. Nem sempre é simpático, antes pelo contrário, mas é tirado com a bonomia de um amigo perante outro de quem gosta muito, não obstante todos os defeitos que lhe reconhece.

É uma fotografia nossa tirada por este brilhante autor neerlandês que, de forma acutilante, realista, bem escrita e bem-humorada, me proporcionou umas horas de prazerosa leitura, com muitas gargalhadas à mistura.

O Autor sabia bem do que falava, ou não tivesse ele optado por viver em Portugal durante vários anos e, não obstante, gostado muito do nosso país.

É sempre interessante conhecer como os estrangeiros nos vêem. A nossa opinião sobre nós é obviamente toldada porque somos portugueses e, tanto nos vemos com excessiva benevolência, como somos exacerbadamente autocríticos.

No posfácio à obra, da autoria de Fernando Venâncio, que é também o tradutor, é mencionada uma entrevista a Komrij, onde este referia que “Falar dos portugueses é uma tarefa ingrata (…) não gostam de ser criticados e têm pouca capacidade de se rirem de si próprios.”

Talvez eu não seja uma portuguesa convencional, porque não só nos vi, a nós portugueses, ali refletidos, como me ri como há muito não sucedia com um livro.

Infelizmente o autor já faleceu, mas a sua belíssima escrita, humor, sentido crítico, conhecimento profundo da nossa realidade, sem deixar de ser também crítico do seu país e seus compatriotas, permanece e traz-nos estas surpresas, estas verdadeiras pérolas.

É certo que o livro foi escrito em 1996 e muita coisa mudou desde então. No entanto, será bem assim? Estou em crer que, no pior, não mudou nada.

E, não, neste capítulo intitulado “Ciclo”, não me ri nem um pouco…

Leia-se:

“A relação dos portugueses com a natureza deve estar profundamente marcada pelo facto de tê-la a arder.

É que nunca a queima pára. Por toda a parte há qualquer coisa que arde. O país inteiro é fogo de artifício e fogaréus de arraial. Fogueiras em plena rua e intermináveis incêndios de floresta.

O maior espectáculo de todos são os incêndios de floresta.

A cada Verão que passa, os políticos prometem fazer finalmente alguma coisa e, cada Verão, a coisa arde com violência acrescida. Anos atrás era vê-los bradando que, graças às medidas tomadas, as estatísticas indicavam que, até Junho inclusive, e comparado com os mesmos meses do ano anterior, o número de incêndios tinha diminuído drasticamente. Ora, obrigado. Durante o mês de junho inteiro tinha chovido a potes.

Não obstante a existência de uma entidade para a política florestal, jamais pude descortinar, nas matas em meu redor, sombra de tal política.

Quem levar em consideração que os portugueses constituem um povo que aprecia voltar-se a olhar para trás, não se admirará de eles descobrirem, assim com essa facilidade, a existência de medidas preventivas. Um povo que olha para trás apenas sabe que um carapauzito na mão tem mais substância do que o bacalhau ainda feito de sonhos que com ele poderia apanhar. Daí a plantação de árvores que crescem rapidamente. As fábricas de celulose são poderosas e esfaimadas. Madeira rápida significa lucro rápido. Diante dessa madeira nova – uma raça de eucalipto especialmente acirrada -, toda a madeira lenta e velha deve abdicar. [ano do livro: 1996??].

Fogo nela.

Se alguém se informasse que a entidade de política florestal é uma subsecção secreta da indústria da celulose, garanto que não me admirava. É mais que certo que um dos directores da política florestal – ou o Ministro do Ambiente, sei eu lá – é primo da prima do tio que é por sua vez irmão do cunhado da irmã do patrão da celulose. [Onde ouvi já eu isto???].

De outra maneira não consigo explicar como é que os políticos, neste exacto ponto, esquecem com tal rapidez e tal regularidade as suas promessas – promessas que, com vista a eleições, de quando em quando têm de cumprir. De outra maneira não consigo explicar como os incêndios aqui lavram invariavelmente na madeira velha, e nunca, nem uma vez por brincadeira, numa plantação de nova madeira baratucha que dá pelo nome de eucalipto.

Não que a madeira velha seja muito melhor. Simplesmente, o pinheiro ordinário cresce mais devagar. Dá menor rendimento. Além disso, os troncos disponíveis não param de desvalorizar-se, devido às golpeaduras, sem ordem nem jeito, da coletividade de resineiros, miseravelmente pagos.

Portugal vê-se, assim, servido com os fósforos de pior qualidade da Europa. Quem, aqui, quiser acender o cigarro com o fósforo de fabrico nacional, pode dar-se por feliz se, duma assentada, não se levar a si próprio, ou à casa, no mar de chamas. (…)

Nas matas, dá-se em geral com muitos passeantes, como sejam os que andam eternamente na boa-vai-ela, os camponeses a caminho do seu campito, os caçadores apostados em perdizes e tudo o mais que queira voar, e os resineiros. Muitos passeantes fumam. E é assim que o fósforo português, produto da madeira queimada, se encarrega de novos fogos, que fornecem nova madeira queimada, boa para fósforos, por exemplo. A mata devastada prossegue a sua devastação por próprias forças.

Fantasia minha?” 

 Infelizmente, não.

Sobre o autor:

Gerrit Komrij nasceu em 30 de Março de 1944, em Winterswijk e faleceu em 5 de Julho de 2012 em Amesterdão. Viveu em Portugal desde 1984, em Alvides (Trás-os-Montes) e Oliveira do Hospital.

Foi um poeta, escritor e dramaturgo neerlandês, com vasta obra publicada, e homenageado com muitos prestigiantes prémios.

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