«A história de uma serva» de Margaret Atwood :: Opinião

historia-serva-revista-estante-fnac

“Nada muda de um momento para o outro; numa banheira cuja a água aquecesse gradualmente morreríamos cozidos sem dar por isso. Havia histórias nos jornais, claro, cadáveres em valas ou nas matas, mortas à cacetada ou mutiladas, vítimas de violências, como de costumava dizer, mas eram histórias acerca de outras mulheres, e os homens que faziam coisas dessas eram outros homens. (…) Que horror, dizíamos nós, e eram, mas eram horríveis sem serem credíveis. Eram muito melodramáticas, tinham uma dimensão que não era a dimensão das nossas vidas.”

A banheira é a sociedade e quem está a cozinhar lá dentro somos todos nós, se bem que achamos que são sempre os outros. Os outros a quem acontecessem coisas que não são assim tão a realidade e o espelho da sociedade que está à nossa volta. Uma realidade para a qual não queremos olhar e assumir o nosso papel. Um papel de cidadão activo, consciente e se necessário reivindicativo, capaz de se mobilizar.

“Se o que estou a contar é uma história, então tenho controlo sobre o final. Haverá então um final, ao que se seguirá a vida a sério. (…) Contar, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, em todo o caso, escrever é proibido. Mas se é uma história, mesmo na minha cabeça, devo contá-la a alguém. Uma pessoa não conta uma história apenas a si própria. Há sempre mais alguém. (…) Juntar um nome, junta-te ao mundo dos factos, que é mais arriscado…”

É dessa banheira que June olha e narra a sua recente realidade: a de Serva em Gileade. Ela está lá para servir sexualmente ao seu Comandante e procriar. Parir é a sua missão. O seu valor é o de ser fértil, à semelhança da serva Bila na Bíblia, oferecida no lugar da esposa estéril. E assim ficamos a conhecer Servas e Esposas, para além das Martas e da Tia Lídia, tudo mulheres, mas todas elas com papeis diferentes e extremamente obrigatórios.

“Aquilo que decorre neste quarto, debaixo do dossel prateado de Serena Joy, não é excitante. Não tem nada que ver com paixão, amor ou romance, nem nenhuma das outras ideias que dantes nos faziam vibrar. (…) A excitação e o orgasmo já não são considerados necessários; seriam meramente um sentimento de frivolidade, (…).

A narrativa distópica de Atwood critica ferozmente uma sociedade que segue totalitarismos e o fanatismo religioso, condenando as mulheres à ignorância e à obediência cega, seja às leis divinas ou ao próprio marido. Caso disso é a Cerimónia mensal, um acto de violação mascarado de condor divino ou o próprio ritual do parto onde Esposa e Serva estão, como bichos de circo, num autêntico espectáculo, sem resguardar ou proteger desejos, direitos ou intimidade da mulher.

Os disparates e barbaridades seguem-se uns atrás dos outros, aumentando a carga emocional e critica de todo o texto, devidamente fragmentado para que o leitor possa perceber o antes, assustadoramente semelhante à nossa actualidade e o presente, a sociedade espartilhada, abusadora e violenta de Gileade. Também assusta pela forma como hoje alguns países se estão novamente a aproximar da religião como palavra de ordem e de partidos à direita que querem resguardar o papel da mulher, cingindo-a à família e aos filhos. Mais alarmante é em certa parte deixar no ar a suspeita islâmica como desculpa para um Governo suspender a Constituição e o povo ficar, pacientemente, a assistir na tv e à espera de novas ordens.

“O tempo não ficou parado. Correu por cima , fez-me desaparecer, como se eu não passasse de uma mulher de areia, deixada demasiado perto da água por uma criança descuidada. Fui apagada por ela. Não passo agora de uma sombra (…)”

As Servas são realmente sombras. E aceitar como lhes pedem, apenas o desígnio da procriação, juntamente com toda a violência a que estão sujeitas e o constante clima de ameaça e observação, atira-as num desespero suicida, seja ele pelo próprio acto em si ou pelas tentativas de revolta, castigadas com duras pesadas: uma mão cortada, menos um olho ou até a excisão feminina.

“Estou deitada na cama, ainda a tremer. Se molharmos o rebordo de um copo e passarmos o dedo por ele, produz um som. É assim que me sinto: esse som do vidro. Sinto-me como a palavra estilhaçar.”

Estilhaçadar é um bom sinónimo para a narrativa de Atwood que assume contornos diabólicos que parecem ser um alerta para as transformações que ocorrem debaixo dos nossos olhos. Pede-nos que passemos da indignação à acção e que não fiquemos apenas a ver acontecer e a julgar que não nos chega a nós.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s