«O despertar do adormecido» de Alistair Morgan :: Opinião

«O despertar do adormecido» de Alistair Morgan podia muito bem ser apelidado: a tempestade que é o luto e a dificuldade que é despertar para a vida.

Narrado na primeira pessoa, por John, embatemos desde cedo com a morte da mulher e da filha, mortas num acidente de carro. O carro que ele próprio conduzia.

No entanto, a tempestade do luto é ainda maior, pois o enredo traz à cena uma outra família, fragmentada e despedaçada pela morte da mãe. É na infelicidade e no desespero que estas pessoas se cruzam e alterarão para sempre a forma como, cada um, voltará olhar ao sofrimento e ao luto.

“Levo-lhes as canecas de chá e vou buscar a minha antes de me sentar. O silêncio é tão incomodativo que se torna fisicamente doloroso. Que triste trio fazemos! Nenhum de nós está à vontade para conduzir a conversa. Por isso, levamos as canecas à boca e olhamos para elas como se estivessem cheias com as inseguranças dos outros.”

As inseguranças e os remorsos, vão consumindo John, bem como Roelf, Simon e Jackie, cada qual com a sua dor e a sua tormenta, bem como a ânsia de conseguirem superar e continuar com a vida que a sociedade lhes pede. Mas por certo não será da forma retorcida e tóxica como Jackie os une.

“Penso no que cada um transporta no seu íntimo, no que pesa sobre eles e os faz vergar. Transportamos todos poços de cólera e de tristeza dentro de nós, como se fossem frutos, e é à volta deles que dispomos a carne dos nossos caracteres e personalidades. Penso em Roelf em particular, e na ligadura de religião em que se envolveu de modo que não perca a sua forma.”

A forma com que os pais querem moldar os filhos ou a família, nem sempre assenta no formato que os adolescentes escolhem para si mesmos, e se por um lado temos um pai que se debate com o abismo que o separa dos filhos, do outro temos o fosso de um pai que ficou órfão da filha.

“Pela primeira vez, estou a começar a aperceber-me de que perdi o meu papel na sociedade. Já não sou um pai nem um marido. Não contribuo para a economia de uma maneira significativa (…) Sinto-me um verme anémico que de súbito foi exposto à luz crua da realidade depois de terem virado a pedra sob a qual vivia.”

É desta forma metafórica, mas simples e crua que o autor faz constatações sobre o desgosto e a dor e arrebata o leitor, expondo fragilidades e máscaras que são de todos em certas fases da vida, alertando sem alarido ou ferocidade para a fragilidade e o insólito com que a vida se pode obscurecer.

“Às vezes penso que as nossas vidas são como submarinos: sensíveis às mudanças de pressão e constantemente em perigo de meter água.”

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