«Irmão de gelo» de Alicia Kopf :: Opinião

«Sê como o gelo, transparente, e retém tudo no teu interior.»

                                                                       Provérbio Inuit

É nesta demanda de reter tudo no seu interior que se situa a exploração que o leitor irá abraçar ao ler este «Irmão de gelo». Kopf explora os pólos, as obsessões brancas, os sentimentos e o tanto que fica por dizer. Não por falta de palavras para se expressar, mas por existirem congelamentos que o crescimento aumenta e escurece; atrapalhando a transparência que esclarece, que une… A demanda do gelo é épica.

“Apontamentos de exploração II:

Épica I

É possível uma épica que não seja imperialista, desportiva ou totalitária?

Épica II

Não há em toda a história familiar uma luta territorial? Espaços domésticos e afectos como territórios por conquistar.”

A épica desta narrativa é a luta territorial. Perseguir o nosso espaço, conquistá-lo à família, à sociedade. Às vezes até a nós mesmo, interiormente, numa luta com os vários “eus” que nos habitam.

Não é esclarecedor? Não, não é. Mas que o leitor não comece este livro em busca de esclarecimentos.

Aceite antes a viagem sabendo que o naufrágio pode acontecer a qualquer momento e que nem sempre a bóia de salvação está acessível. Sim, são metáforas. Exactamente. Este é um livro dissolvido em metáforas. Com ideias tão lúcidas quanto o branco virgem da neve, mas igualmente míopes como essa mesma neve que cega e afugenta pelo perigo que representa.

“O quebra-gelo

Encalho com frequência neste projecto. Em meu redor, nada; branco.

(…) Porque não me interessam os exploradores polares por si próprios, mas a ideia de procura num espaço instável. Gostava de falar de tudo isto como uma metáfora, porque o que desejo encontrar é uma épica, uma épica nova, sem adversários nem inimigos, uma épica da própria pessoa e da sua ideia. (…)

Eu procuro-as,”

Alicia Kopf organiza uma exploração a algo tão longínquo como o pólo norte, abismando se com as dificuldades de procura e a complexidade de um icebergue, afirma a congelação e a estagnação, mas também a ruptura, a ameaça e o confronto com um gigante incompreendido e à deriva. Complexo por esconder grande parte de si.

Escondido e fragmentado como a narradora oca e matrioskada desta narrativa.

Noutras divagações a expedição pode ser só a um palmo do nariz ou a algo que repousa na nossa mão; a bola de neve, uma bola de vidro que aprisiona cenários que agitamos, um objecto kitsch que encerra um fascínio ao longo de gerações. Um objecto esquecido, nostálgico. Um presente que encerra em si memórias. Dar e receber, autênticas explorações quando se cingem ao seio familiar.

“Dar algo é criar uma ponte, uma ligação com um certo desequilíbrio, talvez com o objectivo de se equilibrar no futuro ou para compensar uma situação sentida como «excesso» ou generosidade do outro em relação ao passado. (…)

A pergunta fulcral é: em que ponto o verbo dar se aproxima do verbo ser, ou seja, o que se «dá» de «si próprio»? Porque uma relação implica sempre esta troca entre um e outro, este ir e vir que apenas os objectos materializam.”

Espero até aqui ter consigo dar a entender que «Irmão gelo» é uma exploração por significados para o próprio leitor. É um olhar para dentro mesmo estando a olhar às análises feitas por outra mão que não a nossa, quando discorre e se alonga com a escrita, como um processo de mediação insaciável, uma terapia constante e absorvente.

“Raiva e degelo

Passeio nos Pirinéus

(…)

Numa família onde a mãe está sempre a trabalhar, o pai não está presente e se tem um irmão autista, mais vale entreter-se sozinho. (…)

A neve é sempre neve, e é uma maneira de manter o vínculo com este lugar inventado que tento cercar através da narração e cujo centro espero conquistar um dia. (…)

Pergunto-me se depois de todos estes anos de estudo, de trabalho e relações amorosas mais ou menos falhadas, me poli ou me desgastei. O que resta de mim é uma jóia ou uma pedrinha?”

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