Se esta rua falasse – James Baldwin

Se-esta-rua-falasseJames Baldwin é considerado um dos escritores americanos mais importantes do século XX, a que se junta a sua importância como ativista dos direitos civis; encontrava-se, até agora, sem qualquer livro seu traduzido em Portugal, mas em boa hora a Alfaguara decidiu apostar na sua obra.

Se esta rua falasse é um romance breve, com menos de 200 páginas, mas nem por isso deixa menor marca no leitor. Através de uma narrativa na primeira pessoa pela voz de Tish, uma jovem negra de 19 anos, conhecemos sua relação com Fonny, de 21, desde crianças até aos grandes desafios que enfrentam no presente. Através de constantes recuos ao passado das suas infâncias e a um passado mais recente, o leitor rapidamente de familiariza com a bonita história de amor dos dois, num texto que se destaca pela sua singela sensibilidade e pela forma aparentemente simples como relata um amor que parece capaz de vencer todos os obstáculos.

É certo que a linguagem do amor é algo universal e que o amor entre dois negros não será diferente de qualquer outro, mas ao colocar as personagens na Nova Iorque do início dos anos 1970, a relação de Tish e Fonny é inevitavelmente condicionada pelas repressões raciais ainda existentes, que ameaçam o futuro risonho sonhado por ambos.

Ainda que James Baldwin nos mostre situações que marcam pela revolta que suscitam no leitor, achei Se esta rua falasse um livro muito otimista. Não só porque as personagens principais se valem do seu amor para enfrentarem os tempos mais difíceis, mas porque existe um vívido sentimento de família, amizade e comunidade, que nos fazem ter a esperança que o final desejado chegará.

Apesar da história cativante e interessante, aquilo de que mais gostei neste livro foi, sem dúvida, a prosa de James Baldwin. Há uma mistura de contenção e de sabedoria nas suas palavras, na forma como descreve o amor, a vida e todos os sentimentos pelo meio, que não podem deixar de falar ao coração de quem o lê. Por tudo isto, não posso deixar de recomendar este livro. Muito bom!

Não adianta tentar compreender este mistério, tão longe de ser simples como de ser seguro. Não sabemos o suficiente sobre nós mesmos. Acho que é melhor sabermos que não sabemos, porque assim podemos crescer com o mistério, à medida que o mistério cresce dentro de nós. Mas, por estes dias, toda a gente sabe tudo, e é por isso que tanta gente anda tão perdida.

Quando duas pessoas se amam, quando realmente se amam, tudo o que acontece entre elas tem algo de sacramental. Por vezes pode parecer que se afastam muito uma da outra: não conheço maior tormento, nem vazio mais retumbante. Quando quem amas desaparece! Mas esta noite, com os nossos votos tão misteriosamente ameaçados, e os dois postos diante desse facto, embora de ângulos diferentes, estávamos mais profundamente juntos do que alguma vez estivéramos antes.

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