«Todos os Dias são Meus» de Ana Saragoça :: Opinião

“Sempre li muito. Não me lembro de mim em pequena sem um livro por perto – o que deve querer dizer que a minha vida consciente só começou quando descobri a leitura. Os livros afastavam-me do que me rodeava, das colegas que faziam troça de mim, da realidade melhor-que-a-de-muita-gente-mais-ainda-assim-bastante-desoladora da minha infância.

Ao longo dos anos fui-me recolhendo mais e mais nos livros. Recebi todos os rótulos possíveis: empinada, marrona, bicho-do-mato, (…) acabaram todos por me deixar em paz, arrumando-me na prateleira das caixas-d’óculos vagamente apalermadas. O resultado foi uma grande liberdade interior, que é a minha riqueza maior até hoje.”

Esta é a voz da “razão”, rotula-se a si mesma e apresenta-se através das páginas de um livro resgatado ao lixo. A solidão impera e a estranheza também.

A voz do professor, agora reformado, nostálgico e desamparado completa essa solidão e o abandona à rememoração e imaginação.

O rebuliço do prédio, não menos só, pertence a dois miúdos inquietos, mas só, sem outra companhia para brincadeiras a não ser um elevador acompanhado do vómito diário do cão nervoso da porteira.

A porteira, regateira, é um autêntico jornal de caserna, enche a sua solidão com o sobe e desce com que nos dá a conhecer a vida dos vizinhos. A vida que ela acha que eles têm. E é aí que tudo se torna mais digno de investigação. Conhecer a solidão de uns pelo espelho da solidão de outros e resolver o enigma do cadáver no elevador.

“Naquela noite chamei o elevador e ele veio. Ignorei o deslize da pobre máquina e desci as escadas. A luz do patamar estava acesa, a porta fechada. Sentei-me no último degrau, alimentando uma vaga esperança de que ela se tivesse enganado, mas lá no fundo sabia que acabara tudo.

Tudo o quê? Não me pergunte. O meu luto começou naquele dia, e enterrei-a no dia em que a mataram. Sei que foi assassinada, sei que é uma vítima, sei que ninguém merece morrer assim, mas que quer? Foi como se ela me tivesse fechada a porta na cara mais uma última vez.”

Um enredo mirabolante que espalha personagens e vidas que se assumem como tentáculos, sugam o leitor e viciam-no até atingir a última página. Isto sem esquecer as gargalhadas, a inteligência e uma análises incisiva às coisinhas tipicamente portuguesas.

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