«Departamento de Especulações» de Jenny Offill :: Opinião

“O que disse Ovídio: Se alguma vez fores apanhado, por muito bem que escondas, / Mesmo que seja numa noite clara, jura e rejura que é mentira. / Não te mostres demasiado servil, nem mais atencioso do que é devido, / pois com isso apenas lograrias afiançar a tua culpa. / Esgota-te se for necessário e demonstra na cama dela / que não poderias ser tão bom se acabasses de vir da cama de outra.”

“Departamento de Especulações”, de Jenny Offill, (Relógio de Água, 2015) é um livro arrebatador. E ao mesmo tempo uma chapada em diversos tons e de difíceis contornos. Ou seja, nem sempre percebemos se as palavras nos apanham em cheio, como os cinco dedos de uma mão ou se é apenas, um indicador esticado que nos cutuca o nariz, em jeito de empurrão mais subtil.

O que é certo é que Offill não escreve sobre nada de novo: um homem, uma mulher, casam e fazem bebés, um dia o homem cansa-se ou sabe-se lá o quê, traia a mulher e a ela, tipicamente como é esperado, dispara em especulações, emoções, divagações e (talvez) separações.

Simples básico banal.

Nada mais errado! E é isso que faz do departamento de Jenny um departamento sem igual nesta empresa compartimentada que é a vida a dois.

“A vida é igual a estrutura mais actividade.”

“Os budistas dizem que há 121 estados de consciência. Desses, só três envolvem angústia ou sofrimento. A maior parte de nós passa o tempo a circular entre esses três estados.”

Se a estrutura está em risco e a actividade é torturante, minada pelos círculos de angústia e de sofrimento, daí só poderia resultar uma narração conturbada, híbrida e fragmentária, de onde sobressai uma mulher que procura entender, sentir e se abrir ao que a vida tem, agora, para lhe oferecer.

A invenção do barca representa também a invenção do naufrágio”

“Até ao século XVII, era geralmente admitido que os ímanes possuíam alma. De que outro modo podia um objecto atrair e repeli?”

Com quantos sinónimos e de quantos antónimos se faz uma relação?

Atracção/traição. Amor/paixão. Cumplicidade/solidão. Desejo/ sexo. Intimidade/repulsa.

Há de tudo no inventário de Jenny Offill. Mas de tudo mesmo, abrindo assim o leque de pessoas que pode atingir. E atinge de certeza.

“O que disse Simone Weil: A atenção sem objecto é uma forma de oração superior.”

“Uma experiência mental, proposta pelos estóicos. Se estás farto de tudo o que tens, imagina que o perdeste.”

É difícil definir, é extremamente complexo de explicar, pois não é só de sentimentos, de desgosto ou desapego, da maternidade ou da complexidade da vida a dois, todo o livro é digno de ler e reler, de pensar nos diversos caminhos que nos aponta… até na profissão a narradora nos surpreende, ela aceita ser ghostwriter de um “quase astronauta” russo.

“Minha Vera, Tua Mãe Já Sabe Usar Naftalina. É a mnemónica que lhe deram para recordar a ordem dos planetas.”

Com uma separação digna de quem habita outro planeta, a esposa vai narrando e, ora se afasta, ora se aproxima, como se tivesse ao seu dispor um zoom que procura calibrar.

Ela quer compreender, ela quer aceitar. Especula ensinamentos, palavras alheias, compara-se aos outros e olha para si, para ele, para o “nos”. Há até quem diga que este livro é uma ode ao casamento.

 

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