«Pequenos fogos em todo o lado» de Celeste Ng – Opinião

Em Shaker Heights, Cleveland, o pacato subúrbio tem tudo para que a vida dos seus moradores corra às mil maravilhas. É verdade, é cliché, mas as vidas bem-sucedidas são por ali uma colecção digna de caderneta de cromos, artigo usual nos anos 90, precisamente a década em que decorre a acção.

Postas as peças em cima da mesa, o jogo começa do fim para o princípio, recuando a acção e o enredo para que o leitor consiga perceber como chegámos aquele fogo posto.

No entanto, há regras do jogo e a família Richardson cumpre-as à risca, tendo apenas um pequeno entrave, os filhos, ou pelo menos alguns deles. E é aí que os pequenos fogos alastram.

Outra peça menos fácil de encaixar no jogo é Mia, uma mãe solteira recém-chegada à “vila”, com uma filha adolescente, Pearl; ambas vão criar laços fortes com os Richardsons, mas também desfazer o seu mundo idílico e cheio de máscaras, abrindo espaço a mais pequenos fogos. Mia é um enigma, um case-study, uma mulher misteriosa que desperta paixões.

“Concentrou-se na fotografia (…) Era uma fotografia de uma mulher, de costas para a câmara (…), um emaranhado de membros que, apercebeu-se a Sra Richardson com um choque, a fazia parecer uma enorme aranha. (…) acabou por se voltar para Mia com curiosidade. Nunca conhecera ninguém como ela. (…)

A Sra Richardson sempre levara uma existência ordeira e organizada. (…)Tinha sido educada para seguir regras, para acreditar que o funcionamento correcto do mundo dependia da sua obediência (…) E depois havia aquela Mia, uma mulher completamente diferente, (…) uma parte dela queria estudar Mia como se fosse uma antropóloga…”

Quem mais se sente perturbada por esta propagação incendiária é Elena Richardson, num misto de curiosidade e de medo avança pelo caos que teme poder instalar-se e procura saber mais do passado das recém-chegadas. Talvez Elena seja a personagem mais fascinante, porém a reviravolta na sua vida é expectável.

“Durante toda a vida, aprendera que a paixão, tal como o fogo, era uma coisa perigosa. Facilmente se descontrolava. Subia paredes e ultrapassava trincheiras. As mais pequenas centelhas saltavam e espalhavam-se (…) Era melhor controlar a sua centelha (…) Ou, se calhar, mantê-la cuidadosamente acesa (…) Cuidadosamente controlada. Domesticada. Feliz em cativeiro. A chave, pensou ela, era evitar a conflagração.”

Pode o passado ser uma arma directamente apontada a nós e por isso ameaçador e condicionante?

Pode a queda das máscaras, tão acarinhadas, condicionar o futuro, abrindo caminhos sem retorno no quotidiano de uma família?

Pode, claro que pode. E é isso que Celeste Ng mostra neste seu «Pequenos fogos em todo o lado» dando várias dimensões às suas personagens e histórias de vida, num enredo cheio de camadas.

A velocidade inicial com que cheguei a bem mais de metade do livro quase o torna num típico page turner, estava cativada pela escrita e pelas camadas que a autora dá às dinâmicas criadas entre os adolescentes e as próprias mães, instigando curiosidade no leitor, tornando a leitura imparável; mais pelo ambiente de mistério do que pelas crises de adolescência.

A aura daquele pedaço americano, já tão falado, era agora descrito de um jeito menos banal, ainda que pejado de referências dos anos 90, facto que tornou o livro tão próximo da minha adolescência. No entanto, a certa parte, ou por desconfiar do desfecho ou por lhe reconhecer semelhanças com algumas séries, desinteressei-me um pouco pela leitura. Ou então, por a certa parte já não querer mais viagens ao passado de Mia, queria sim o calor de cada momento tenso na ligação daquelas mulheres.

“(…), Mia deixou ficar a mão, como se fosse uma escultora a modelar os ombros de Pearl. (…) Há muito tempo que a filha não a deixava estão tão próxima. Os pais, pensou, aprendiam a sobreviver a tocarem cada vez menos nos filhos. Em bebé, Pearl, agarrava-se a ela; (…) à medida que foi crescendo, Pearl continuou a agarrar-se à perna da mãe, depois à cintura, depois à mão, (…) Agora que Pearl era uma adolescente, as carícias da filha tinham-se tornado raras – (…) – quando aquilo que mais queria no mundo era abraçar a filha com tanta força que as duas se fundissem e nunca mais pudessem ser separadas.”

É curioso que agora ao escrever sobre este livro, relendo partes, tenha dado conta que realmente gostei mais dele agora do que no momento em que o terminei. É esta a magia dos livros. Só pode!

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