«MANAZURU» de Hiromi Kawakami – Opinião

“O meu marido desapareceu sem deixar rasto. Até hoje, não voltei a vê-lo.”

O romance «Manazuru» podia assim encher-se com luto e o abandono, causado pela incerteza do desaparecimento de Rei. Mas não. Apesar de narrar um desaparecimento com mais de uma década, Kawakami, coloca Kei, a esposa, no centro desta narrativa, preenchendo-a de emoções e sensações, descritas em pequenos gestos do quotidiano. No entanto, o livro é igualmente um labirinto de duvidas, que substitui o ritmo ansioso e ofegante da incerteza por uma delicadeza estranha e cativante, que parece própria da cultura nipónica.

“A resposta não se fez esperar. Sim, estou ressentida! Sim, sinto rancor. (…) é qualquer coisa no mais fundo de mim própria, é todo o meu ser, o núcleo do meu corpo que tem ressentimento por esse marido que desapareceu sem dizer fosse o que fosse. (…) Qualquer coisa de que Seiji não se pode apoderar. Teria de ser Rei a fazê-lo. (…) Só o homem que ele era se podia apoderar.

É o que explica, sem dúvida, que a minha mãe não gostasse dele. (…) Ter-nos-emos reaproximado desde que voltámos a viver juntas? Três mulheres debaixo do mesmo tecto, três seres de carne. Aqui estão os seus corpos, como pequenas esferas que se se misturam. As três mulheres não têm o mesmo eixo, não têm o mesmo centro, não são superfícies lisas, estão aqui, cada uma delas, com a sua espessura própria.”

«Manazuru» é um livro complexo que explora a geometria própria de cada corpo e do que lhe faz falta nas diferentes relações de proximidade. A relação mulher-homem, que ultrapassa a dimensão do casamento, primeiro com o aparecimento de uma criança, carne da sua carne, e depois, mais tarde, fruto da necessidade e do desejo, um corpo que pertence a outro alguém, um amante. E no meio disto tudo, o retomar a uma proximidade mais ancestral, o voltar ao corpo da mãe.

“Quando nos vemos separados de um ser que nos acompanhou por muito tempo, só o efémero resta. Passar-se-ia, sem dúvida, a mesma coisa com Seiji. Fi-lo entrar no meu quarto. – Porque o meu corpo não te deseja! – expliquei-lhe e ele riu. – Mas eu, eu tenho uma certa vontade de estar contigo. (…)                                                                                    Amo-o, tudo é frágil, e eis-nos separados. O amor não implica necessariamente a união.”

Kei analisa o que gera proximidade, se amor, desejo, necessidade, afecto, toque, solidão, dependência, lugar, eixo, distância, medo, obrigação… E analisa-o face a quem lhe é próximo, a mãe, como lugar e casa para onde volta; a filha, Momo, que lhe sugou energia e afecto e a fez renegar às suas vontades de mulher esposa; ao marido que a possuía de forma desigual; ao amante, que na sua estranheza silenciosa, a aceitou e lhe devolveu um certo sentimento de pertença e ainda uma presença misteriosa que a acompanha para todo o lado. Essa coisa que se sobrepõe e se impôs a Kei, tal como as memórias e o vazio.

“Tudo se tornou vazio. Murmuro de mim para mim, a sós comigo. E todavia, havia qualquer coisa que se preparava já para preencher o vazio. Do mesmo modo que a água em que se dissolve o ágar-ágar não é realmente translúcida, porque, apesar de lavadas as algas das suas impurezas, as duas substâncias têm densidades diferentes e é necessário algum tempo para que uma e outra se misturem (…)”

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