«A fé de um escritor» de Joyce Carol Oates :: Opinião

«Uma afinidade com o riso, o perigo, o mistério, uma certa inquietude da alma; uma ânsia de desassossego… estes são alguns dos ingredientes da personalidade dos escritores… mas, neste magnífico livro, Oates dá-nos algo maior, muito mais próximo da fé.»
Los Angeles Times

Oates dá-nos a vontade de sair a correr em busca de inspiração ou aguardando que o resultado do esforço nos dê o encaixe certos das ideias. Oates dá-nos também a certeza de que a secretária está bem posicionada e que parte da meditação à janela é a melhor forma de encetar uma tarde entre livros e a escrita. Oates dá-nos ainda mais quando esmiuça o génio, a arte, a técnica, a resiliência e a solidão que o ofício da escrita e até da leitura exige.

Numa análise que se expande desde a infância à idade adulta, Oates recorda a doentia inspiração vinda de Poe, o imaginário mundo de Lewis Carol, a importância de aceitar os impulsos que desde cedo formatam o escritor. É importante seguir imaginando, sonhando e idolatrando tantos outros escritores; mestres desse ofício solitário e tantas vezes incompreendido. Um ofício romântico, podendo estar condenado ao fracasso e certamente condenado à revisão constante e ao escrutínio da avaliação alheia.

“Todos os escritores – todos os artistas – podem ser classificados como românticos, atendendo a que o próprio acto de criar, e se importar o suficiente a fim de criar, é um gesto romântico. O que começa por ser uma brincadeira de criança acaba, (…) maravilhosamente, como uma «vocação», um «chamamento», um «destino» (…) Contudo, as origens da pulsão permanecem tentadoramente misteriosas, e nós não as compreendemos melhor do que compreendemos os nossos sonhos.”

Esta «vocação» precisa contudo de percorrer o íngreme calvário da criação. Alertando Oates para o facto de o fracasso e o sucesso caminharem muito próximos e facilmente entrarem em conflito. O escritor entrega-se a décadas de esforço, ao serviço de um ideal «transcendental» evasivo, que, em todo o caso, o mais certo é ser mal compreendido ou dificilmente apreciado!?


É capaz. Mesmo sendo apreciado nada garante que o tão desejado «ideal transcendental» é atingido e reconhecido, mas a fé de um escritor é essa mesmo, a de seguir acreditando e aprendendo a aceitar os contornos do fracasso, amadurecendo ideias, personalidade e inspirações, até ao ponto de ser capaz de dar corpo à visão.

“A própria escrita torna-se então o difícil esforço para conseguir sopesar a «importância» – fazendo com que as palavras correspondam à visão. (…) o amadurecimento de qualquer obra de arte não pode ser controlada, excepto nos seus aspectos mais pormenorizados. Quando encontramos a «voz» de um romance, essa voz torna-se hipnótica, violentadora, absolutamente inexplicável.”

Sopesar o poder dessa «voz» nem sempre é fácil e Oates partilha dessa dificuldade, dessa pulsão com outros autores que são para ela de destaque e estudo.

“Porquê a necessidade, nalguns levada quase ao nível da compulsão, de confirmar a experiência através da linguagem? (…) Para Nabokov, (…) Proust, Woolf, Flaubert; sem sombra de dúvida James Jayce – a experiência em si só é autêntica a partir do momento em que foi transcrita para a linguagem: o escritor concede o imprimátur ao seu (histórico) eu através da escrita.”

Chegar à decisão do que é que pode ser impresso é prova vida da personalidade (vagamente!?) conflituosa que habita o «eu» e o «escritor», num complexo processo de vozes e num complexo maior ainda de desespero e vaidade, exigência e perfeição, no qual o escritor incorre no risco de paralisia: “O próprio fenómeno psicológico da paralisia pode no entanto conhecer, em teoria, uma reviravolta graças ao engenho; quando uma pessoa se confronta com as dificuldades da escrita, confronta-se ao mesmo tempo com as condições humanas universais (…)”

Difícil, mas tão humano e necessário é o sentimento de compaixão para que o escritor não perca a sua fé!

“Tenho de contar é o primeiro pensamento do escritor; o segundo pensamento é: Como é que vou contar isto? Através das nossas leituras, descobrimos como são variadas as respostas a essas questões; como têm a marca da personalidade de um indivíduo. Porque é na relação que se estabelece entre a visão pessoal e o desejo de criar uma visão comum pública que a arte e a técnica se confundem”

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