«O Diário Secreto de Hendrik Groen aos 83 anos e 1/4» – Opinião

capa-diario

“O Diário Secreto de Hendrik Groen aos 83 Anos e 1/4” tem sido um furor internacional, talvez mais ainda por o seu autor ser anónimo. O livro foi destacada na TSF e, embrenhe-se desde já nesta intimidade com traços de realismo, algumas dicas de génio e muitas risadas… até com a desgraça alheia, afinal são quase 94 anos e, coerência, equilíbrio e bom senso, nem sempre são o mais importante. O passado também já não tem importância nenhuma, o futuro resume-se às actividades do clube «Velho mas não morto», o dia a dia, o presente é o melhor presente!!! É redundante!? E ser velho é o quê?

Redundante ou não, é hilariante de certeza, pelo menos descrita do ponto de vista de Groen. Tudo tem um carácter temporário quando se chega a esta idade, tudo menos as maleitas. E não se pense que neste relato, quase isento de lamurias ou lamechismo, não se falam de coisas muito sérias. Expõe-se assuntos tão sérios como o desejo da eutanásia, a solidão e as medidas políticas que são pouco amigáveis para os velhos.

“Um dos pacientes da ala das demências enfiou uma bola de bilhar na boca e não conseguia tirá-la de maneira nenhuma. Emitia sons estridentes enquanto dois enfermeiros tentavam tirar-lhe a bola da boca com uma colher.”

“A minha carreira profissional temporário de acompanhador de cão à rua faz com que tenha de dar três voltas por dia. Felizmente o Mao anda ainda mais devagar do que eu. Andar… bem, é mais balançar em câmara lenta.”

“Hoje caiu-me um frasco de pepinos das mãos numa tentativa infrutífera de lhe tirar a tampa. (…) Alguém devia reclamar à indústria das embalagens por dezenas de milhares de acidentes (…) Se conseguem mandar homens à Lua, têm de conseguir fazer umas tampas mais decentes, não?! Confesso, hoje estou um bocadinho maçador.”

Rimos muito, mas também temos muito espaço para reflectir sobre a velhice. Groen tem dias mais tranquilos, outros mais atribulados e cheios de aventura, mas tem alguns bastante mais dedicados aos outros, onde a solidão, a demência, a doenças, as dependências e as políticas do lar, nos abrem caminho a pensarmos nos idosos de outra forma. Ainda assim, o autor consegue, numa escrita simples e directa, tratar de todos os assuntos com um toque de humor e de simplicidade. Talvez se o olhar geral fosse esse, se evitasse tratar de forma tão fria certas questões da velhice. Porém, nem todos os velhos são Groen’s e nem todos seriam capazes de olhar para dentro de si desta forma despreocupada e quase calculista.

“Com a criação do nosso grupo Velho mas não morto houve um aumento na alegria de viver. Parece agora ter sido uma última manifestação de felicidade.

O Evert inválido, a Grietje a ficar demente e a Eefje feita numa plantinha. Um clube de apenas oito elementos não consegue digerir tudo isto, mesmo que se continue a beber bom vinho juntos.”

“A minha scooter e eu tivemos um encontro com uns arbustos.

Fui, depois do jantar, dar um giro pelo parque e observei à minha volta uns vinte coelhos sentados por todo o lado na relva a comer. Quando voltei a olhar em frente, tinha um coelhinho bebé a nem sequer um metro da minha roda dianteira. Tenho de ter reagido bem depressa, porque um segundo mais tarde já estava com a cabeça presa entre os ramos.”

A mensagem deste livro é bastante importante e extensível a vários “ramos”. E desengane-se quem julgue que as queixas deste idoso são diferentes das de muitos aqui em Portugal, aliás, algumas políticas e ideias para lidar com velhos, lares e cuidados paliativos, parecem saídos das nossas notícias.

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