«Dormir com Lisboa» de Fausta Cardoso Pereira :: Opinião

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Apesar da capa bastante apelativa que este livro tem, não resisti a esta foto que encontrei numa das minhas pesquisa e que o emoldura muito bem. E merece.

Conheci a Fausta Cardoso Pereira aquando do seu primeiro livro sobre a peregrinação a Santiago de Compostela e mais tarde li, com bastante entusiasmo, o seu primeiro romance, «O Homem do Puzzle».

Este livro é igualmente um puzzle. As peças são desaparecimentos. Os encaixes que falham são as decisões e inacções de um Governo boquiaberto com a fome de Lisboa por pessoas.

Ambos os romances partem do insólito e são pautados por episódios até plausíveis que degeneram em eventos com traços de fantástico. O insólito dá origem a metáforas para buscas muito transversais a todos nós: reencontros, descobertas, necessidade de ordem e a procura de equilíbrio. Se o primeiro se centrou mais no individuo, este procura analisar a relação de um povo com a sua cidade e de um Governo, pejado de personagens caricatas, confuso e alheado com o estado de sítio que se instalou.  

«Dormir com Lisboa» não é centrado numa personagem ou num evento, mas antes na relação com Lisboa. No que ela transmite, pede e dá àqueles que a amam, a visitam ou a vivem de muito perto, todos os dias, testemunhas da sua História e evolução, mas também dos constantes ataques que lhe fazem, fragmentando e descaracterizando-a.

Excertos:

“Trazia ainda a ânsia de respirar o Tejo para perceber se estaria insonso ou salgado, e sentir-se pequenina na distância que separa as margens. Queria olhar as pedras da calçada, mais ou menos quadradas, mais ou menos do mesmo tamanho, peças de um puzzle que não encaixam muito bem porque a separá-las cresce musgo e erva daninha.”

“Lisboa era indiferente ás discussões entre quem lhe tratava da crise. Assistindo a tudo isto, ela convencera-se de que o Grupo de Crise é que estava em crise, pois tratava-se de um conjunto de pessoas cujas dúvidas eram as únicas certezas, mesmo quando queriam dar a ideia que a situação , imprevisível e perigosa, estava controlada e sabiam o que fazer.”

“Enquanto a dona Emília Gualter falava, o Inspector percorria-lhe o rosto e o corpo em busca de sinais que denunciassem os seus noventa anos. Reparou nas pontas do cabelo grisalho (…) nos dentes brancos que o fizeram questionar se seriam dela ou placa, no pescoço sempre levantado, incapaz de se curvar ao amarrotado que seria de esperar (…) nas costas direitas como as de uma bailarina. Não havia ali noventa anos; apenas a continuação interrupta de uma forma de senhora.”

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