Uma Mulher Desnecessária – Rabih Alameddine

36273735Rabih Alameddine é um escritor e pintor de origem libanesa, que vive atualmente entre Beirute e São Francisco. Em Portugal, tinha já sido publicado O Contador de Histórias, de sua autoria, um livro que confesso me ter passado ao lado, mas que me passou a interessar bastante depois de ter lido Uma Mulher Desnecessária. Não vou esconder que o que me atraiu neste livro foi a importância que a literatura parecia ter para a protagonista desta história, para além de achar que é sempre bom ler sobre países cuja realidade praticamente desconheço.

Aaliya é uma libanesa na casa dos setenta, que vive sozinha no seu mundo. Este seu mundo é composto, quase em exclusivo, pelas personagens e vidas das histórias que lê e traduz. Aaliya não tem propriamente uma profissão que seja o seu ganha-pão, mas o trabalho da sua vida é traduzir livros para árabe, não para serem publicados mas porque é isso que gosta de fazer. Aaliya não é uma mulher fruto do seu tempo, que se tenha vergado a um casamento indesejado – apesar de isso ter feito parte da sua vida – ou às normas da sociedade onde vive: ela escolheu o seu caminho, e esse caminho passava por viver no mundo dos livros.

Ao longo da narrativa, escrita de uma forma belíssima por Rabih Alamedinne, são inúmeras as referências literárias (as notas de rodapé, na sua grande maioria bastante úteis, ultrapassam a centena). Aaliya observa o mundo e entende-o com a ajuda dos grandes mestres da literatura; Fernando Pessoa e os seus heterónimos são um favorito e aparecem constantemente. A protagonista não parece propriamente ter encontrado respostas para tudo a partir das reflexões dos seus escritores preferidos, mas antes encontrou neles uma forma de compreender melhor o mundo que a rodeia, algo que não consegue alcançar através da família ou das pessoas que encontra no dia-a-dia. O conforto que Aalyia encontra nos livros é frequentemente contraponto à profunda solidão advinda da recente velhice; se, quando era mais nova, os livros pareciam bastar-lhe, o avançar da idade traz-lhe de volta questões por resolver – nomeadamente com a mãe – e a tímida vontade de finalmente poder falar com alguém, encontrando bondade e amizade onde menos esperaria.

Uma Mulher Desnecessária é um livro comovente, muito bem escrito e que, quanto a mim, peca apenas pelo final demasiado em aberto. A empatia que cria com o leitor é, quiçá, fruto da sensação familiar de que um escritor conseguiu finalmente pôr por escrito aquilo que sempre sentimos e que nunca antes tínhamos conseguido explicar. É um livro que exalta a importância da literatura, nunca esquecendo que ao ser humano a solidão, eventualmente, não basta. Muito bom.

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