A Gorda – Isabela Figueiredo

agordaAdvertência: Todas as personagens, geografias e situações descritas nesta narrativa são mera ficção e pura realidade. Assim se inicia A Gorda, deixando desde logo o leitor avisado para as possíveis intersecções entre os eventos narrados neste livro e a experiência pessoal de Isabela Figueiredo, que se estreia com este livro na ficção. Narrado na primeira pessoa ao longo de vários capítulos cujo ponto de partida é uma divisão da casa, a autora dá-nos a conhecer Maria Luísa, nascida em Moçambique e enviada pelos pais para Portugal em 1975, ao longo da sua infância, adolescência e maioridade, numa narrativa que alterna constantemente entre período temporais da vida da narradora.

Maria Luísa é uma miúda inteligente, dedicada e voluntariosa, que vive condicionada pelo seu aspeto físico. O seu excesso de peso não influencia só quem é fisicamente; acaba por também definir que ela é, e a pessoa em que se vai tornar. Maria Luísa mostra-nos, enquanto relata os episódios que marcaram a sua vida, a constante vontade de se libertar das amarras impostas pela sua aparência e o conformismo com a mesma, numa viagem marcada pelas constantes visões opostas sobre os aspetos fundamentais da sua vida. Tão depressa quer livrar-se da presença e influência dos pais como reconhece que os ama e que nunca quer despedir-se deles; a sua relação complicada com David passa constantemente de algo sem o qual não pode viver para algo que a consume e do qual se quer livrar; o próprio peso define-a e é parte dela, mas Maria Luísa sabe, lá no fundo, que a sua vida seria completamente diferente sem ele.

É um livro que fala, claro, do impacto que tem a aparência na vida de uma pessoa. Mas é muito mais do que isso: não fala só sobre a forma como a sociedade (não) aceita as pessoas que fogem do “normal” a nível físico; acrescenta uma muito relevante perspetiva de como essas pessoas se aceitam a si próprias. Maria Luísa é um poço de contradições e a sua forma de encarar a vida, os seus dilemas e frustrações perturbam o leitor porque, lá no fundo, todos temos um pouco de Maria Luísa. Isabela Figueiredo conseguiu, quanto a mim, construir uma personagem que marca o leitor porque o fere, quando desbragadamente pôe por palavras aquilo que muitas vezes sentimos mas não queremos admitir.

No final de contas, achei A Gorda um livro poderoso. Muito bem escrito, perturba e mexe com o leitor. Deixa uma marca quando a última página é virada. Ainda que não o considere perfeito devido a alguma repetição de ideias, foi um livro que gostei muito de ler e que me deixou a certeza de que vou querer ler futuras publicações desta autora portuguesa.

Ainda penso como gorda. Serei sempre uma gorda. Sei que o mundo das pessoas normais não é para mim. Continuo a ter o defeito, mas não se vê tanto; tornou-se menos grave.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s