Um Estado Selvagem – Roxane Gay

940188Que livro brutal. Já tinha lido muitas coisas boas sobre Um Estado Selvagem, romance de estreia da escritora norte-americana Roxane Gay, mas penso que nada me preparou para o que encontrei. Narrado (quase sempre) na primeira pessoa, este é um livro que retrata um episódio de rapto de Mireille Duval Jameson, descendente de imigrantes haitianos nos Estados Unidos da América. Quando visita aos pais no Haiti com o marido e o filho bebé, Mireille é raptada por um grupo que exige que a família dela pague um milhão de dólares pelo seu resgate.

O livro divide-se em duas partes: a primeira relata os 13 dias em que Mireille esteve sob o jugo do grupo que a raptou, com vários flashbacks à sua vida anterior, na qual nos fala da relação com a família e com o marido, bem como de todas as coisas que fizeram a Mireille de antes; na segunda parte, depois da sua libertação, ficamos a conhecer a Mireille de depois, inevitavelmente outra mulher, profundamente marcada por tudo o que lhe aconteceu.

Roxane Gay não poupa nos horrores que descreve enquanto Mireille se encontra cativa. Ela sofre todo o tipo de abusos, sexuais, físicos e psicológicos, e é incrível a forma como sentimos que aquela mulher está a morrer aos poucos, ainda que o seu corpo resista.

Transformei-me em ninguém. Transformei-me numa mulher que queria viver. Era essa a minha resistência. […] Tomei a minha escolha. Não há nada que não se possa fazer quando não se é ninguém.

Ainda que o evento do rapto e a viagem ao interior de Mireille sejam os pontos fulcrais deste livro, Um Estado Selvagem é, também, o retrato de um país assolado pela pobreza, pela corrupção, pelo crime e pelo medo. Mas não só: a imigração e os complicados sentimentos de pertença, quando não se sente pertencer a sítio algum, são também temas importantes, e que me fizeram recordar os livros que li do dominicano Junot Díaz.

Adorávamos o Haiti. Detestávamos o Haiti. Não compreendíamos, nem conhecíamos, o Haiti. Anos depois, eu continuava a não o compreender, mas almejava pelo Haiti da minha infância. Quando fui raptada, percebi que nunca mais voltaria a encontrar esse Haiti.

Este é um livro difícil de ler, porque o relato na primeira pessoa de Mireille é muito visceral e violento. Roxane Gay consegue muito bem transmitir a dor física e psicológica da personagem principal. Sofremos com ela e torcemos para que ela consiga transformar os horrores de que foi vítima em algo que a torne mais forte, ainda que saibamos que isso talvez seja impossível. Tal como Mireille jamais conseguirá esquecer o que lhe aconteceu, também é muito provável que o leitor não esqueça facilmente esta história. Muito bom.

Era uma vez a minha vida, que era um conto de fadas, e depois roubaram-me de tudo o que eu alguma vez amei. Não houve felizes para sempre. Depois de dias a morrer, eu estava morta.

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