«Raparigas Mortas» de Selva Almada :: Opinião

“Quando eu era pequena, adorava ir ao cemitério. Nas tardes soalheiras, nos domingos de inverno, com sacos de crisântemos ou dálias, flores que o avó plantava no seu jardim com o único objectivo de enfeitar as sepulturas dos nossos mortos.

(…)

Havia sobretudo dois túmulos que me causavam fascínio e espanto, um sentimento romântico, obscuro, que uma menina de sete ou oito anos não conseguia perceber.”

Não é assim que começa o livro, mas bem que podia que podia ser. É que o que se segue torna-se igualmente mórbido e soturno. A obsessão revelada nestas páginas tem mais intensidade que muitos policiais e thrillers psicológicos, tal é a profundidade com que se procuram detalhes e mais informações para perceber os crimes contra estas mulheres.

“No tarô nunca aparece sequer o rasto de Sarita, viva ou morta. É a única das três que nunca fala. A Senhora diz que sente que Sarita está viva ou, pelo menos, esteve viva até há pouco tempo. (…) Mas por outro lado, eu digo que se eu nunca sonhei com ela é porque continua viva. Se estivesse morta, teria voltado em sonhos para se despedir.”

É entre crenças, cartas e adivinhações que por vezes pensamos estar dentro de um romance mais negro e onírico, apelando a seres esotéricos e a espiritualidades, tão ao bom jeito e tradição da América Latina, no entanto, «Raparigas Mortas» não é um romance. Nem tão pouco um policial. Mas também não é apenas um livro de não ficção, não é um texto panfletário e reivindicativo, de apelo e consciencialização, contra a violência que tantas mulheres sofrem. Não, não é nada disto, mas é um pouco de cada uma destas coisas, criando um registo próprio, por vezes quase alucinante, que baralha e desnorteia o leitor.

“Recordo as fotos que vi de María Luisa. A que o irmão me mostrou do seu corpo na morgue, inchado, enlameado, com partes do rosto comidas pelos pássaros. E outras duas que vi no processo.

Uma também é do seu corpo, no sítio onde a encontraram. Está tirada a uma certa distância, é uma fotografia a preto e branco. Vê-se o corpo de uma mulher a flutuar na água. Faz-me lembrar o quadro de John Millais, o de Ofélia morta. Como a personagem de Hamlet, María Luisa jaz de barriga para cima.”

Leio este parágrafo e a minha cabeça dispara para a voz quase gutural de Nick Cave e a fragilidade de Kylie Minogue naquele cenário que me fez lembrar a imagem descrita por Selva Almada, já que a sua escrita consegue ser frágil e até bela e descrever o horror e a impunidade.

“(…)

Tão decididas a ignorá-lo que deverá ter sido uma surpresa a mão no ombro de Rosa, por trás, fazendo-a girar, com os olhos avermelhados de Juan como que a suplicar de novo, a mesma mão atraindo-a para si, a outra cravando-lhe o punhal, ela a cair, os dois a cair sobre o passeio, ele apunhalando uma e outra vez, a mãe dela a gritar, a correr à procura de ajuda. Rosa a olhar para ele fixamente, ainda sem entender. Demorando a morrer. Ele em cima dela metendo e tirando a faca. Ela debaixo dele como na cama da pensão. Ele todo salpicado de sangue. Não aguentando o olhar dos olhos claros de Rosa, Juan abriu-lhe a garganta de lado a lado. (…)”

Que mais se pode transcrever para mostrar que este livro é um grito que se levanta e clama por todas estas vítimas e outras mais, espalhadas mundo fora. Mulheres que morrem apenas por serem mulheres. Mulheres que morrem às mãos de namorados e maridos violentos ou apenas homens ao acaso que julgam que as mulheres são para ser subjugadas às suas vontade, anulando-lhes as vontades próprias. Anulando-lhes a vida. É narrando esse horror e a impunidade desses crimes que Selva Almada dá vida a estas mulheres.

“Talvez seja essa a tua missão: juntar os ossos das raparigas, montá-las, dar-lhes voz e depois deixá-las correr livremente até onde tiverem de ir.”

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