«As nossas almas na noite» de Kent Haruf – Opinião

A propósito da estreia do filme inspirado neste livro, lembrei-me de meter mãos à obra e escrever sobre esta leitura, ainda antes de ser influenciada pelo filme.

Antes de mais, importa dizer que Addie e Louis são o espelho das segundas oportunidades, mas também do condicionamento que a família, por vezes, pode representar e isso foi o que mais me chocou, especialmente pelo fim. Eu queria algo mais radical. Quem sabe uma road trip, com dois velhos aventureiros, estrada fora, carro clássico e grandes músicas. Mas isto era eu a sonhar e provavelmente a fugir ao espírito dos livros que Kent Haruf constrói. Ou construía, já que infelizmente já partiu, pouco depois de terminar este livro.

Haruf cria um ambiente no qual envolve a acção e os diálogos deste livro, tornando o leitor numa testemunha. A envolvência criada faz-nos sentir dentro da acção. O leitor está ali, na cama, com aqueles dois velhos, partilhando momentos que quebram a solidão um do outro e lhes recarregam as energias. Haruf dá ao leitor, ternura, emoção, esperança, diversão e algumas dúvidas. E é brilhante na forma como o faz, com tão poucas palavras, quase parecem ter sido escolhidas ao acaso, mas devem ter envolvido um trabalho milimétrico e cuidado, pois todas elas são incisivas, essenciais e simples.

“No exterior do quarto às escuras, o vento começou repentinamente a soprar, abriu a janela de par em par e enfunou as cortinas. A chuva não tardou a cair.

– É melhor ir fechar a janela.

– Não a feches toda, Não cheira tão bem? Agora é adorável.

– Exactamente.

Ele levantou-se, puxou a janela para baixo, mas não a fechou por completo, e voltou para a cama.

Ficaram deitados um ao lado do outro a ouvir a chuva.”

São estes pequenos momentos, descritos de forma tão concisa mas penetrante, que brilham e dão seguimento a estas vidas aqui expostas a descoberto e nada prontas a serem açambarcadas pelos erros e consequências das acções de outros. Mas Jamie, o filho de Addie, vai alterar o rumo de ambas estas vidas e isso deixou-me a pensar numa pergunta: farão os filhos adiar as vidas dos pais?

“Tento convencer-me de que acredito nisto. Espero bem que esteja. Ela nunca conseguiu aquilo que pretendia de mim. Tinha uma certa ideia, uma noção de como a vida deveria ser, como devia ser o casamento, mas as coisas nunca foram assim connosco. Falhei-lhe neste sentido. Ela devia ter casado com outra pessoa.

– Estás outra vez a ser muito duro contigo – afirmou Addie. – Quem é que alguma vez alcança aquilo que pretende? Parece que isso não acontece à maior parte de nós, se é que acontece a alguém.”

A proposta improvável de Addie a Louis talvez apanhe o leitor de surpresa, como o final me apanhou a mim, ou então sou eu que ainda acredito em finais aventureiros que curem as feridas que não saram ao longo da vida.

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