«Fora do Mundo» de Michael Finkel :: Opinião

Se eu fosse uma pessoa organizada e criasse, ao longo do ano, uma lista dos “livros do ano”, «Fora do Mundo» iria ocupar esse TOP e de certeza nos primeiros lugares. Finkel faz da história de Knight quase um policial ou melhor, um thriller psicológico. O que leva um homem de 20 anos a querer perder-se, intencionalmente, na floresta e por lá ficar sem data para voltar?

Ora pois, Finkel não sabe, Knight não revelou e o leitor fica apenas pode criar histórias e desfechos e seguir com uma leitura entusiasmante.

“«Não tenho explicação para as minhas acções», disse ele, «Não tinha planos quando parti e não estava a pensar em nada em particular. Limitei-me a afastar-me.»”

Knight tinha 20 anos quando se embrenhou na floresta e desapareceu. A sua família no Maine não foi no seu encalço, família essa também conhecida pela reclusão. O jovem transformou-se e imiscuiu-se na paisagem até passarem 27 anos e ser descoberto devido aos pequenos (e ridículos) furtos que foi cometendo ao longo dos anos.

Apesar dos seus planos meticulosos para obter provisões e objectos essenciais, foi igualmente meticuloso quem se propôs a “caçar” este eremita-ladrão. Se a dedicação Hughes não tivesse sido do calibre que foi, nunca teríamos tido acesso a esta história. Foram 27 anos de reclusão mesmo no limite da civilização.

“A sua principal forma de entretenimento era a leitura. Os últimos momentos nas cabanas assaltadas costumavam ser passados a examinar estantes de livros e mesas de cabeceira. A vida dentro de um livro sempre lhe pareceu acolhedora. Não lhe fazia exigência, ao passo que o mundo dos seres humanos reais era demasiado complexo. (…) Para Knight tudo lhe parecia insuportável.”

Knight era reservado, silencioso, temerário, resiliente, pensativo, metido consigo mesmo, mas não representava qualquer perigo, ainda assim foi difícil a Finkel obter o conteúdo a que agora temos acesso, mas a sua determinação e talvez a empatia que ambos criaram permitiu chegar até nós este relato que o autor tão bem recheou com uma série de informações interessantes.

“Na Inglaterra do século XVIII, houve uma moda disseminada no seio da classe mais alta. Várias famílias julgaram que, de acordo com a sua condição, lhes fazia falta um eremita, e começaram a surgir nos jornais anúncios para «eremitas ornamentais» (…) A aristocracia inglesa dessa época acreditava que os eremitas irradiavam bondade e ponderação…”

São diversas as considerações que este livro refere, promovendo bastantes momentos de reflexão e outros em que simplesmente o leitor o saboreia como um simples romance policial.

“Knight era sensível ao facto de o considerarem louco. (…) Quando alguém nos pergunta se somos loucos, lamentou Knight, podemos responder que sim, o que faz de nós doidos, ou podemos responder que não, dando a ideia de que estamos na defensiva, como se temêssemos haver algo de errados connosco. Não há uma resposta acertada.”

Tal como também não haverá uma justificação acertada ou única para que alguém se ausente de quase tudo o que é convencionado para uma «vida normal».

“Não há quem não sonhe, de vez em quando, afastar-se do mundo. (…) Knight decidiu ficar. Não há dúvida: infringiu a lei vezes sem conta para sustentar a sua evasão, mas nunca foi violente. (…) Era um introvertido compulsivo e não um criminoso implacável. Knight seguiu um chamamento muito peculiar e manteve-se mais fiel a si próprio do que a maioria de nós alguma vez conseguirá. Não tinha qualquer desejo de fazer parte do mundo.”

Eu diria antes da sociedade. E sim, de certeza que já todos nós, de vez em quando, pensámos em fugir da sociedade.

*

Fica também um link para um entrevista a propósito da publicação deste livro em Portugal.

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