«A Estrada Subterrânea» de Colson Whitehead :: Opinião

Bastante aclamado pela crítica e vencedor do Pulitzer de Ficção, Whitehead cria um romance quase onírico, onde cruza os caminhos da escravatura com os dos defensores da abolição, criando um corredor subterrâneo que pode levar à luz e à liberdade, até lá, lemos e torcemos para que os planos dêem certo e que a luta tenha outro fim que não a morte às mãos dos caçadores de escravos ou o tronco e o chicote.

“A música parou. O círculo quebrou-se. Por vezes há um escravo que se perde num remoinho de libertação. Embalado nos súbitos devaneios da ondulação ou ao desvendar de mistérios de um sonho ao romper da manhã.

(…) o grito do capataz, o chamamento para o trabalho, a sombra do patrão, a recordação de que ela só é um ser humano durante um breve momento da eternidade da sua servidão.”

É dessa eternidade subjugada ao todo-poderoso algodão, que ansiamos que Cora consiga um destino melhor que aquele, a que a sua condição de escrava negra e mulher, lhe confere como herança.

“Quando se chega a esta idade, tanto se pode ter noventa e oito como cento e oito. A única coisa que o mundo ainda pode ter para nos mostrar serão as mais recentes encarnações da crueldade.”

Face à crueldade e à desumanidade que foram os tempos da escravatura, o que aqui se relata é também a esperança e as tentativas de chegar a solo abolicionista e não mais a propósito poderia surgir uma frase que li algures enquanto lia este «A estrada subterrânea»: “Se pudesses falar, que segredos contarias?”

Não são palavras de Colson Whitehead, mas resumem de forma muito concreta e sucinta a essência deste livro e igualmente a obscura capacidade de fazermos mal uns aos outros, ora por medo, ora por ganância.

“A cidade de Nova Iorque era uma fábrica de sentimentos contra a escravatura. (…) Argumentavam que Nova Iorque era um estado livre e que, como por magia, qualquer pessoa de cor se tornava livre assim que pisasse os limites do território.

(…)

Enquanto Ridgeway esperava pelos contrabandistas nas docas, ancoravam navios magníficos vindos da Europa que descarregavam os passageiros. Traziam tudo o que possuíam nuns sacos e vinham meio famintos. Fosse como fosse, pareciam tão desafortunados como os pretos. (…) Esse fluxo branco e sujo sem lugar para onde ir senão para fora. Para sul, para oeste. Eram as mesmas leis que regiam o lixo e as pessoas. As sarjetas da cidade transbordavam de desperdícios e rejeitados… mas o tempo encarregar-se-ia de arranjar lugar para toda esta confusão.”

Como se pode perceber pelo excerto, «A Estrada Subterrânea» não é só sobre escravatura, plantações a sul, negros açoitados e brancos endinheirados. É acima de tudo sobre a condição humana, arriscaria eu a dizer, condição essa num traço transversal que se estende até hoje. É o Homem que tanto cresce como é esmagado, na tentativa de acompanhar as leis de uma sociedade que avança supostamente na direcção certa.

“(…) A única coisa que os tipos negros não tinham construídos era a árvore. Deus encarregara-se dela, para que a cidade se curvasse às mãos do Diabo.

Não admirava que os brancos vagueassem pelo parque à medida que ia ficando cada vez mais escuro, pensou Cora (…) eles também eram fantasmas, apanhados entre dois mundos: o da realidade dos seus crimes e aquele no qual lhes seria vedada a entrada precisamente por esses mesmos crimes.”

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