«Teoria Geral do Esquecimento» de José Eduardo Agualusa :: Opinião

“Deus inventou a música para que os pobres pudessem ser felizes.”

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Não é por falta de livros publicados de José Eduardo Agualusa que eu não o leio mais vezes. Aliás, enquanto lia este livro fabuloso perguntava-me por que motivo espero eu tanto tempo para voltar a autores que me são tão queridos!? Um esquecimento imperdoável!

No entanto, no esquecimento não cairá, com toda a certeza, esta teoria e estas pessoas que, durante uns dias coabitam com o leitor. A vida de Ludo e a forma como o leitor a vai lendo, bota no topo da lista a esperança e não a desgraça. Aliás, Agualusa consegue escrever de coisas tristas com palavras bunitas 😉 e dar à história um toque musical e quente como Angola será.

É como se a necessidade de ver beleza ou fabricá-la seja a melhor arma contra a violência, o esquecimento, o erro, a solidão ou uma qualquer crise. É que neste livro há disso tudo e mais, mas eu parece que só lhe senti o ritmo, o calor, as palavras bonitas, a criatividade e a forma quase inocente de lutar por uma vida melhor.

“Pequeno Soba conseguiu fugir da cadeia, escondendo-se dentro de um caixão, episódio burlesco, a merecer, adiante, narrativa dilatada. Uma vez no exterior passou à clandestinidade. Todavia, ao invés de se refugiar nalgum quarto escuro (…), optou pela situação oposta. Aquilo que todos vêem, deixa de ser visto, filosofava. Passou, assim, a circular pelas ruas (…)”

“Aquilo que todos vêem, deixa de ser visto…” Talvez seja essa a grande teoria que justifique grande parte da cegueira que nos atropela a todos, mesmo que para questões diferentes. E sabendo que Ludo, para se refugiar de outras clandestinidades e medos, ergue uma parede em frente à porta da rua, deixa em muito o leitor a pensar, com que outras formas de nos barricar saímos na mesma à rua? Será que por vezes todos nós não somos um pouco invisíveis e assinamos um atestado de invisibilidade a tantas coisas e pessoas para as quais não estamos sensibilizados!?

Não sei se me faço entender, mas o livro levanta imensas questões, mesmo que pairem na cabeça de cada um de forma diferente:

“Quem olhasse para o prédio, de um outro edifício com altura semelhante, veria um caixote movendo-se, debruçando-se, voltando a recolher-se.

Nuvens cercavam a cidade, como alforrecas.

A Ludo lembravam alforrecas.

As pessoas não vêem nas nuvens o desenho que elas têm, que não é nenhum, ou que são todos, pois a cada momento se altera.

Vêem aquilo que o coração anseia.

Não vos agrada a palavra coração?

Escolham outra: alma, inconsciente, fantasia (…)”

Creio que se percebe pelo excerto o que quero dizer sobre entendermos ou questionarmos conforme as nossas preocupações ou anseios; falhas ou curiosidades; equívocos ou conhecimentos…

“fantasma morreu esta noite. tudo agora é inútil.

O olhar dele me acarinhava, me explicava e me sustinha.”

Quem ampara e alimenta a nossa existência?

De que forma as alterações políticas de um país alimentam e envenenam cada um de nós?

E perante as adversidades da vida, quem esquece quem? Somos nós que vamos esquecendo o mundo ou é o mundo que nos engole e nos substitui?

As questões são transversais e universais, bem como algumas personagens nas obras de Agualusa, seja a Osga ou Monte ou a procura por justificações que se desvanecem na cegueira e no esquecimento das grandes economias mundiais.

“Tudo o que é sólido se desmancha no ar, murmurou Monte, pensando em Marx, e pensando, como Marx, não em aviões, mas no sistema capitalista, que ali em Angola, prosperando como bolor entre as ruínas, vinha já apodrecendo tudo, corrompendo tudo, e, dessa forma, engendrando o próprio fim.”

Engendrando fins, mas deixando pontas soltas; moldando violências em poesias e ritmos musicais;  sussurrando pequenas esperanças e riquezas escondidas, José Eduardo Agualusa tem livros que falam de tudo e dos quais somos incapazes de dizer, com determinação, do que falam em concreto. O melhor mesmo é lê-lo e cada um interpretar aquilo que o seu inconsciente mais pede.

“Vão para o Paraíso as pessoas de quem os outros mais sentem a falta. O Paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros.”

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