“Quem lê poesia, vive menos cansado das coisas bruscas da vida.” – opinião – «Os livros das nossas vidas»

 “Afinal, o modo correcto de ler é o que satisfaz a nossa necessidade. A leitura apressada, lenta ou cuidadosa, depende dos nossos objectivos. Escreveu Francis Bacon: «alguns livros são para ser degustados, outros engolidos e outros ainda mastigados».”

Pequeno, conciso e variado assim é este «Os livros das nossas vidas». Um compêndio generoso de diversas sugestões de leitura, espalhadas por várias áreas e para serem degustadas consoante a nossa vontade ou não fosse este livro ser apresentado como uma roda dos alimentos, sendo os livros, nas seus mais variados conteúdos, as diferentes fracções da roda dos alimentos.

“Transportamos recordações e, através delas, construímos narrativas do que somos, do que vivemos e do que queremos vir a ser e a fazer.

Bibliotecas e livrarias são os locais destas memórias. (…) Retiramos um livro da prateleira, consultamos, lemos, anotamos, e repomos como numa despensa organizada e repleta de sabores, condimentos e aromas.”

Por isso, arrancamos para a leitura com duas perguntas: «como é a nossa dieta?» e «se tivermos o prato vazio, o que vamos lá colocar?».

Fácil, percebi logo que o meu ficaria recheado de hortícolas e frutas, ou seja, romances e outras ficções e alguns romances cheios de fibra. Mas como é óbvio, uma dieta saudável precisa de variedade e pequenas pitadas de coisas diferentes que exponham o indivíduo a novos apetites. Também seria fácil: alguns ensaios e poesia.

Mas também entendi que o melhor tempero são as personagens: aquelas cheias de força, de indecisões, dores e tormentos ou então vidas cheias de absurdo, de ridículo; personagens que fazem um romance ganhar força e fibra.

“Em Conversa na Catedral (1969), de Vargas Llosa, temos de viver com as personagens, dar a mão aos figurantes e caminhar com eles, tomar partidos pelas personagens, rir e discutir, viver uma experiência abrangente, porque a relação é intelectual e emocional. É preciso consentir que as personagens ganhem vida na nossa imaginação e seguir-lhes o rasto de modo a saborear os diferentes paladares da obra.”

Se o tempero característico e de base, que dá sabor ao prato são as personagens, o condimento que acusa se a narrativa está no ponto ou não, é a quantidade de sal, certo?; então aí temos uma mistura de sais, conspiração, intriga, suspense… e chegamos aos mestres desses despertares, onde os crimes espreitam a cada esquina e o leitor consome páginas vorazmente, garfada, atrás de garfada.

“O suspense aguça o raciocínio e aumenta a concentração. Todos os neurónios se agitam e a curiosidade intelectual vai-se adensando à medida que o suspense aumenta (…)

A atitude interrogativa na literatura policial e de espionagem é absorvente. Somos levados a analisar o caso, levantar hipóteses, verificar perspectivas, relacionar pistas…”

Nada melhor que um policial para digerir o jantar e o stress acumulado de um dia de trabalho. Ler implica desligar do resto e concentrarmo-nos ali, naquelas vidas, naquele enredo e relaxar do nosso próprio enredo.

“Ler implica saber ouvir, disponibilidade para seguir a outra voz e nos deixarmos levar pelos seus caminhos, não de um modo passivo, mas tentando compreender o outro acima de tudo, sem urgência de nos pronunciarmos, actividade cada vez mais rara.”

Ou seja, ler melhora a alimentação e o estado de espírito, em suma, faz de nós, leitores, melhores pessoas, mais sensíveis, mais despertas para a linguagem e os sinais do outro.

“(…) é importante não resistir ao efeito da literatura. Devemos deixar que a narrativa nos comova. O romancista maximiza as ambiguidades latentes da linguagem para alcançar a riqueza e a força da vida interior…”

Este pequeno livro de Henriques e Barros dão uma visão alargada do poder dos livros nas nossas vidas, sejam eles romances que alegram e dar cor ao nosso prato ou grande épicos que nos enchem de fibra e energia, tal como as proteínas dadas pela filosofia ou os livros de História, sem esquecer os deleites com o teatro e a poesia ou as digestões mais difíceis e trabalhosas dos grandes temas da Humanidade que o jogo da informação actual nos oferece ou os caminhos sinuosos das Religiões.

Seja qual for o foco de cada leitor, o recomendado é que se varie e e se saboreei o melhor da cada mundo.

“Comecemos pela epopeia de Gilgamesh, gravada em tabuinhas sumérias em 2000 a. C., embora a narrativa date de 2750 a. C. Após muitas aventuras, Gilgamesh chora a morte de Enkidu, seu companheiro,. Incapaz de aceitar a aniquilação, o herói começa a busca pela vida eterna. Quem encontrou na sua caminhada, incita-o a apreciar a vida (…)”

E talvez seja essa a maior saga do leitor: procurar a imensidão da vida eterna, vivendo muitas vidas através dos livros, ou, aproveitar a vida, gozando os livros e o quanto eles ensinam a aproveitar o agora, através de lições e exemplos de superação que nos ensinam a relativizar.

“Ler poesia é escutar, conversar, dialogar. Não é um monólogo, antes um contacto com outro mundo (…) Os grandes livros de poesia são aqueles que contêm as grandes ideias ou as ideias que vão ao encontro das nossas inquietações. O poema tem essa mesma função: elevar, transportar a outros estágios, causar bem-estar. Todo o poema é uma lição de vida. (…)

Quem lê poesia, vive menos cansado das coisas bruscas da vida.”

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