«As Cidades Invisíveis» de Italo Calvino :: Opinião

Difícil tarefa tem o leitor viajante para se aventurar nesta viagem por entre cidades invisíveis contadas a quem tanto deseja conhecer e narradas por quem parece ter algo a esconder. «As Cidades Invisíveis» é um conjunto de divagações ou micro narrativas de Italo Calvino, por entre conversas entre Marco Polo e Kublai Kan e eu diria até entre um leitor viajado que vai em busca de reconhecer alguns dos destinos que já visitou e com boa memória mantêm vivas diversas viagens.

Tudo para Marco Polo pudesse explicar ou imaginar que explicava ou ser imaginado a explicar ou conseguir finalmente explicar a si próprio que aquilo que ele procurava era sempre algo que estava diante de si, e mesmo que aquilo que ele procurava era sempre algo que estava diante de si, e mesmo que se tratasse do passado era um passado que mudava à medida que ele avançava na sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, digamos não o passado próximo a que cada dia que passa acrescenta um dia, mas o passado mais remoto. Chegando a qualquer nova cidade o viajante reencontra o seu passado que já não sabia que tinha: a estranheza do que já não somos ou já não possuímos espera-nos ao caminho nos lugares estranhos e não possuídos.

Talvez esta longa explicação possa orientar o leitor por entre tantas possibilidades de visitar cidades com nome de mulher a quem o narrador remete características oníricas e descrições, que na objectividade podem encaixar em diversas cidades reais (quais nunca saberemos), mas na subjectividade já só podem encaixar naquelas em que se criaram memórias, de onde se trouxeram cheiros e sabores e imagens que, inevitavelmente, mudam à medida que cada um de nós muda e já com outros olhos, olha e recorda uma viagem.

“Se devo explicar-te de que maneira o espírito de Olívia tem a tendência para uma vida livre e uma civilização requintada, falar-te-ei de damas que navegam cantando de noite em canoas iluminadas por entre as margens de um verde estuário; mas é só para te recordar que, nos subúrbios onde desembarcam todas as noites homens e mulheres como filas de sonâmbulos, há sempre quem  no meio do escuro desate a rir, quem dê o sinal de partida às brincadeiras e aos sarcasmos.”

Aqui, neste pequeno excerto da terceira parte, «As cidades e os sinais» pude perfeitamente regressar a 2006 quando visitei Veneza, quando dei por mim, novamente, parada junto a um cais olhando perdida ao romantismo que envolvia aquelas gondolas que navegavam devagar e contrastavam com a horda de vaporettos carregados de pessoas que regressavam do trabalho, envolvidas e revolvidas com turistas.

Este retorno sentiu-o outras vezes, dei por mim a viajar nas palavras de Calvino e a aterrar outra vez em Ronda, contemplando o horizonte que se estende e diminui ainda mais o caminheiro, que palmilha campos e planaltos na ânsia de atingir o topo e usufruir da cidade. Ou cheguei outra vez a Roma, olhando-a sempre com outros olhos, mas também com um resquício de nostalgia de quem procura aquilo que a fez regressar.

“Clarice, cidade gloriosa, tem uma história atribulada. Várias vezes decaiu e refloresceu, tendo sempre a primeira Clarice como modelo inigualável de todo o esplendor, em comparação com o qual estado presente da cidade não deixa de suscitar novos suspiros… (…)

Nos séculos de degradação, a cidade, esvaziada das pestilências, baixando a estatura devido aos desmoronamentos (…) entupida por incúria ou falta dos responsáveis pela manutenção (…) Agarravam-se a tudo o que se pudesse retirar donde estava e pôr noutro lugar para servir para outro uso (…) E então os resquícios do primeiro esplendor que se tinham salvado adaptando-se a necessidades mais obscuras eram novamente deslocados…”

Muito se podia viajar e esmiuçar neste compêndio de divagações, memórias e observações de Calvino, mas deixo para cada leitor, a fuga para dentro destas invisíveis, ocultas na memória de cada um e guardo para o fim, retirado de «As cidades e os mortos» um excerto e uma pergunta, serão as viagens um somatório de retalhos, com vivências, cheiros, pessoas, imagens… que vão completar a cidade final; a cidade que habitaremos quando já mortos?

“Pensei: «Se Adelma é uma cidade que vejo num sonho, onde só se encontram mortos, o sonho faz-me medo. Se Adelma é uma cidade verdadeira, habitada por vivos, bastará continuar a fixá-los para que as parecenças se dissolvam e apareçam caras estranhas, que dão angústia. (…)»

«Chega-se a um momento da vida em que da gente que se conheceu são mais os mortos que os vivos. E a mente recusa-se a aceitar outras fisionomias, outras feições (…)»

«Talvez Adelma seja a cidade a que se chega ao morrer e em que cada um reencontra as pessoas que conheceu. É sinal de que também estou morto» (…)”

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s