Ronda das mil belas em frol

A Fernanda Palmeira falou dele na última Roda e aproveitei para ler…

Qual sentinela, iniciei a ronda das (mil) belas em flor, de Mário de Carvalho. Foram elas: a Gherda, a Madalena, a Antonieta, a Cremilde, a Mónica, a Olga, a Marta, a Patrícia, a Magda, a Dionilde, a Zulmira, a Bruna, a Aurora, a Adozinda, a Yolanda, a Senhora e a Católica.

A cada final de canteiro, perdão, conto ou capítulo, adensava-se uma questão em mim: mas para quê a “ronda” quando, a final, a sensação que fica é a de de que cada bela não cumpre os desígnios, logrando ficar aquém das “expectativas” geradas quando, na verdade, não há (quase) nada mais triste do que um jardineiro descontente com o seu jardim?

Ora a bela se revela pueril, ora sabida, ora dissimulada, ora bruta, ora ela mesma uma mulher de rondas, ora tomada de uma lassidão, ora demasiado empenhada, ora desligada, ora meio louquinha, ora arrebatada, ora mais promessa do que concretização, ora casada e arrependida, ora casada mas não arrependida, ora envaidosada, ora jovem demais, ora frontal em demasia, ora presumivelmente indiscreta, ora, ora…!

Para quê enveredar por uma vida de “ronda”, qual libelinha, voando de frol em frol? Se nenhuma “bela” vale, de facto, a pena, se nenhuma merece ao menos uma elegia, por pequena, ao “rondador”? Uma vida de ronda não pressupõe compensações sem fim? Um manancial de inolvidáveis momentos de desfrute? Um éden? Não cessava de me questionar, ensimesmada, ao longo do livro.

Mas eis que chegamos ao último capítulo, denominado de “Epílogo” e logo notamos que tais questões também se colocaram ao Autor! E que conclui ele? Leiam para saber, que eu não estou aqui para fazer spoiler!

O que não posso é deixar de realçar a elegia que aí, sim, é feita ao sexo feminino. Não sem lançar alguma poalha de ironia, o Autor coloca-se, enquanto Homem, no humilde papel de espectador dos delírios, da volúpia, da beleza que elas, as mulheres, lhe concedem com displicência, sem que, todavia, alguma vez lhe seja permitido penetrar no seu rico interior, reservado e inescrutável. Como se Deusas no altar da mais reservada igreja se tratassem. A sua satisfação, como Homem, é essa: assistir e tirar proveito. E avançar, por entre a dissimulação, que é o apanágio das belas em frol…

O que achei verdadeiramente admirável neste livro de Mário de Carvalho foi a cuidadíssima linguagem utilizada na descrição das sucessivas “rondas”. Quem leu Bukowski, ou Miller, ou Ubaldo Ribeiro entenderá o que quero dizer (não que desconsidere estes autores, pelo contrário!). Mas exultei ao ver que sim, que é possível escrever um livro destes sem que a linguagem descambe para a vulgaridade, para a gíria, para o calão, o que seria facílimo, dado o contexto.

Excertos
“Não poucas mulheres são intensas, efusivas, entusiásticas, e, ouso dizer, desvairadas, no momento da verdade. Querendo, podemos observar, friamente, enquanto elas revolteiam naqueles turbilhões que convulsionam, em simultâneo, o etéreo e o imerso, o que está em baixo e o que está em cima, sem falar dos quatro elementos. Visão deslumbrante: a própria ideia de beleza, o sublime, resplandece no semblante de uma mulher em êxtase. Outro mundo. Coisa misteriosa e, às vezes, assustadora. Meio confundidos, nós, humildes, vamos latejando por cá. Resta-nos a volúpia do prazer que se desencadeou. Mas, elas, por onde deambulam? Por quais paragens?
E, no entanto, não lhe é difícil confessar que passariam bem sem o sexo e estranham, condenando-a, a disseminação de amores, esse milagre da multiplicação dos corpos, das curiosidades, as surpresas. O proselitismo da monogamia – felizmente mais declarado que praticado – chega a ser fanático.
(…)
Não há mais elegante delineio da Natureza que aquela abençoada fenda, sulcada de macios aconchegos, figurando duas mãos que rezam, unidas ao alto, entrada de catedral, gasalho de mistério. E todas individualmente distintas, como o rosto de cada qual. Se não fossem as cargas semânticas que, através dos tempos, tergiversam e desfiguram, eu era muito homem para utilizar o vocábulo “fisionomia”. A mais fascinante não será, porventura, a mais proporcionada e canónica. Celebra-se cada mínima imperfeição da mais esplendorosa ogiva do mundo, onde confluem em subtil harmonia a Arte e o Além.
(…)
Sapatos de ferro gastaria eu de bom grado neste caminho. A graça, o donaire e o fascínio de cada bela em frol torná-los-ia jeitosos e andadeiros.”
“- Vou ser transferida, sabe?
– Para onde?
– Haia.
– Já avisou todos?
Ficou um momento em suspenso, um indicador interrogativo, entre a boca e a aba do nariz. Depois rompeu a rir, alto, e puxou-me para si.
Bem que serão felizes tantos holandeses».

“Não há amores eternos. Já basta que não sejam infelizes.”

Acerca do Autor:
Mário de Carvalho é um autor português, nascido em Lisboa, em 1944, descendendo de famílias do Alentejo. Licenciado em Direito, foi preso político pela PIDE, tendo, após, procurado asilo político na Suécia, em Lund. Regressado a Portugal após 1974, exerceu advocacia, mas a escrita acabou por ser a principal actividade por que é reconhecido, tendo os seus muitos livros, de géneros diversos, sido objecto de variados e importantes prémios.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Ronda das mil belas em frol

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s