Deixar Aleppo – Manuela Niza Ribeiro

35496075Há livros sobre os quais é difícil opinar. Quando um livro é escrito por um amigo essa dificuldade agrava-se ainda mais. É este o caso. Ser amiga da autora confere-me, no entanto, alguma vantagem.

“Deixar Aleppo” é baseado em factos verídicos. Histórias reais cuja autenticidade é conferida não só pela carreira profissional da autora enquanto funcionária do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, pela sua vivência ‘in loco’ nas portas de entrada de refugiados sírios na Europa, mas também pelo facto de ser especialista na matéria.

Apesar do meu conhecimento prévio sobre o que é relatado neste romance, o choque e a angústia não deixaram de acompanhar a minha leitura e foi com um aperto no peito que a terminei. Talvez esta minha proximidade com esta realidade, mesmo que por interposta pessoa, me faça estar mais atenta e desperta para a questão dos refugiados e sua odisseia. Creio, porém, que o tema não deveria passar despercebido a ninguém. Todos somos seres humanos.

“Deixar Aleppo” ganha também pelo paralelismo que é estabelecido entre o acolhimento dos refugiados sírios e o dos emigrantes europeus na mesma Europa. Afinal talvez a diferença não seja assim tão radical…

Aquilo de que menos gostei no livro foi, talvez dado o tema e a sua seriedade, o peso do romance na história. Creio que não perderíamos se o espaço dado a esse romance fosse menor, mesmo percebendo que face a toda a envolvência continua a haver momentos em que ele acontece, o que é sempre plausível.

Também teríamos a ganhar com o desenvolvimento de alguns detalhes e, sei, Manuela Niza Ribeiro possui o conhecimento suficiente para o fazer. Toda a parte final da fuga e as diferentes questões que são abordadas como formas de a conseguir são disso exemplo – o tráfico de seres humanos, o tráfico de orgãos, etc. são temas que mereciam mais desenvolvimento.

“Deixar Aleppo” pode, contudo, contribuir para o necessário despertar de consciências ao aflorar uma diversidade de temáticas relacionadas com a questão da Síria, desde a origem do conflito até ao êxodo e drama dos refugiados.

Um livro que pode abrir horizontes.

Refugiado… emigrante… imigrante… um ser humano como eu.

 

Excertos

“(…) Samira estudava na Faculdade de Medicina, o que teria sido impensável se o pai ainda fosse vivo. Mas ele morrera havia quase sete anos e os irmãos mais velhos tinham emigrado para a Europa tornando-se mais tolerantes e de horizontes mais largos.” (p.14)

“(…) Altiva e sorridente, Samira dirigiu-se ao irmão. Se estivesse em casa tê-lo-ia beijado na face como qualquer rapariga ocidental. Mas ali em plena rua não, correria o risco de ser apanhada por um desses polícias da Xaria que eram quem mais cobiçava as mulheres alheias mas que se tornavam implacáveis face aos desvios morais dos outros.(…)” (p. 15)

“(…) A amiga incentivava-a a tudo fazer para conquistar o seu lugar naquela sociedade que olhava os imigrantes com um misto de desprezo e complacência.
Pouco importava se eram ou não cidadãos europeus. (…) Ana pensava muitas vezes nas várias facetas do racismo e concluía que as mais temíveis eram as que não tinham nem base religiosa nem racial. O racismo era a intolerância perante a diferença, o olhar sobranceiro do mais forte sobre o mais fraco.” (p. 64)

“(…) Nunca tive “base”. Não gosto de bases! Tendem a colar-nos os pés ao chão. (…)
(…) Só se entende a alma de um povo quando se lhe conhece a língua. (…)” (p. 71)

“(…) Samira chegara atrasada à Universidade.
Desde as primeiras manifestações, já lá iam mais de quatro meses, que circular em Aleppo se tornava cada vez mais difícil (…)
Toda a família permanecia confinada a casa (…)
Apenas Samira se recusava a alterar as suas rotinas.
– Se o fizermos já os deixámos ganhar! (…)” (p. 83)

“ (…)Parou junto duma mesa onde um cadáver dum homem jazia em toda a sua nudez. Olhou-o longamente e depois levantando o rosto perguntou à rapariga que se encontrava mais próxima:
– É teu marido?
Ela abanou a cabeça.
– Teu filho, então?
Novo gesto de negação acompanhado por um ligeiro sorriso: o cadáver tinha idade para ser, no mínimo, seu pai.
Numa fracção de segundos o homem sacou duma adaga e com a mesma velocidade e presteza passou-a pelo rosto da rapariga cortando-lhe ambos os olhos. (…)” (p.85)

 

Sinopse

«- É teu marido?
Ela abanou a cabeça.
– Teu filho, então?
Novo gesto de negação acompanhado por um ligeiro sorriso: o cadáver tinha idade para ser, no mínimo, seu pai.
Numa fracção de segundos o homem sacou duma adaga e com a mesma velocidade e presteza passou-a pelo rosto da rapariga cortando-lhe ambos os olhos.»

O horror do conflito Sírio, a fuga desesperada de uns e a impotência de outros, são o fio condutor desta história.
Baseada em factos reais, “Deixar Aleppo” apresenta os dois lados desta realidade tão actual e tão dramática dos milhares de migrantes em busca do Éden e dos homens e mulheres cuja missão é controlar as fronteiras do espaço europeu.

Um inspetor do SEF em missão na Grécia; uma portuguesa dos Médicos Sem Fronteiras; as famílias desestruturadas, estilhaçadas, no repente, no súbito repente, entre a normalidade e o caos.

 

Althum.com, 2016

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