Só Duas Coisas Que, Entre Tantas, Me Afligiram – Alice Vieira

Alice VieiraNormalmente diria que não aprecio particularmente a leitura de crónicas ou contos, mas como em tudo há sempre aquela exceção à regra.

Alice Vieira tem o dom de me fazer gostar, sempre e muito, das suas crónicas.

Com “Só Duas Coisas Que, Entre Tantas, Me Afligiram “ ‘invadimos’, uma vez mais, as “Pequenas Memórias” da escritora e, também uma vez mais, partilhamos de muitas das suas memórias e fazem parte da nossa memória coletiva, relatadas em tom mais sério ou com um fino sentido de humor.

Os seus lugares são, afinal, os nossos lugares, quem gosta de livros, feiras do livro e tudo o que gira à volta do tema também facilmente se identificará com os textos que lhe são dedicados e com os relatos do que é nosso e o que é dos outros.

E, sobretudo, é importante reavivar a memória, as memórias… e perceber que, de facto, entre outras coisas, política fazemos todos e a todos diz respeito. E nada melhor que a primeira crónica para nos relembrar tempos em que a amizade valia pela vida, que se confiava a quem albergava sem questionar.

Um livro abrangente, em temas e nas épocas que aborda, viajamos da infância e juventude da autora até ao enterro de Mário Soares, do sentido de comemorarmos alguns dias que já eram nossos e outros que nos chegam agora “importados” de outras culturas, dos postais ao facebook e aos novos vocábulos…

Um livro que se lê com gosto e de uma assentada, um livro para partilhar, para reviver e para aprender. Um livro para todos os leitores, de todas as gerações.

Imperdível!

 

Excertos

“(…) Mas só quando, aos 18 anos, subi aquela escadinha íngreme do Diário de Lisboa, pensando «é esta a vida que eu quero», e o cheiro a chumbo entrou nas minhas veias para nunca mais sair é que eu senti na pele o que era efetivamente a censura .” (p. 82)

“(…) E termino com o excerto de um texto de Pablo Neruda (…) «Amo tanto as palavras! As inesperadas, as que avidamente a gente espera, espreita, até que de repente caem. Vocábulos amados. Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal orvalho. Persigo algumas palavras. São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema. (…)” (p. 118)

“(…) E, fiel ao meu lema «nunca voltes a um livro onde foste feliz» nunca mais o reli.

É um perigo relermos, na velhice, os livros que nos deslumbraram na juventude.

Nós somos outros.

Os tempos são outros.

As palavras adquirem outro peso e outro significado.

Às vezes sorrimos e até sentimos uma ligeira vergonha por ter havido um tempo da nossa vida em que tínhamos gostado.(…)” (p. 129)

“E já que falamos de «saudade», ficam a saber que ela é considerada pelo Today Translation:

– uma das palavras mais difíceis de traduzir

– a mais bela de todas as palavras.” (p. 170)

“Depois com setembro vinha o cheiro das vindimas, e do mosto a fermentar nas cubas, e o sobrinho génio de 12 anos logo a explicar porque é que os Estados Unidos deviam levantar o embargo. «O embargo a quê?», perguntava sempre alguém, «o embargo a todas as cubas deste mundo, ora essa!», e as pessoas calavam-se, com pena que não fosse já outubro.” (p. 173)

 

Sinopse

Nas memórias que marcaram o meu mundo e nas nossas memórias colectivas, do nosso mundo português, só duas coisas que, entre tantas, me afligiram…, mas mesmo apenas uma ou duas, porque as lembranças de lugares marcantes como o bar do Rick, em Casablanca; o teatro Capitólio; o Santini, em Cascais; o irrequieto mar do Guincho; a redacção do Diário de Lisboa; a tertúlia do café Monte Carlo; o pequenino mundo que começava e acabava no boulevard Richard Lenoir, em Paris, não me afligiram. De todo. Entraram na minha vida e insistiram, teimosamente, em aí ficar a morar, acompanhando-me dia a dia, como fiéis e indefectíveis companheiras de viagem.

Relevantes e nunca aflitivos são igualmente os relatos das minhas viagens quase diárias pelo mundo dos livros e das palavras, onde me cruzei com o Astérix e a Alice (a do País das Maravilhas); onde falo sobre contendas como a dos postais de viagens versus SMS; calcorreio frequentemente bibliotecas e feiras do livro.

E passo em revista alguns dos dias que comemoramos como se fossem nossos – Dia dos Avós, Dia da Mulher, o 5 de Outubro, Dia dos Namorados -, bem como aquelas coisas que são muito nossas (portuguesas) – o chá levado para Inglaterra, a crise, os ilustres que nos deixam e nos marcaram.

Só duas coisas que, entre tantas, me afligiram… são breves estórias, do meu e nosso dia a dia, muitas delas publicadas no Jornal de Mafra on-line, que nos reconduzem às memórias e nos fazem reflectir sobre o mundo de hoje.

 

Casa das Letras, 2017

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