As bicicletas em Setembro – Baptista-Bastos

baptista_bastos_as_bicicletas_em_setembroHá momentos que nos transportam para lá dos dias. A ausência é um desses momentos. Sempre apreciei Baptista-Bastos, o jornalista, o mestre, a sua coerência, e o seu lado escritor. Li alguns dos seus livros, e recordo especialmente “ Cão Velho Entre Flores”. O peso da sua ausência fez-me querer voltar a lê-lo, com o ressoar da sua voz na minha memória…

Não me recordo de alguma vez ter lido uma sinopse tão acertada, tão ‘perfeita’, que quase me leve a não querer escrever uma opinião…

Pela mão de Baptista-Bastos conhecemos Jesuina, os jovens que temporariamente acolhia, a vizinhança do típico bairro provinciano de Lisboa, onde as mentalidades pararam no tempo e onde rumores e histórias inventadas são aceites como verdades.

Um bairro que nos é apresentado no passado, que tentamos ‘colar’ a uma Lisboa antiga, mas que é intemporal. Uma Jesuina desenquadrada, respeitada por temor, invejada e logo injuriada pela incapacidade de aceitação da diferença.

Excelente livro! Um escrita belíssima!

 

Excertos

“Nesses dias de liberdade aprendiam a fixar as coisas, como insistentemente lhes aconselhara Jesuina. Fixar as coisas e as emoções que desencadeavam. As coisas perdem-se com o tempo, dizia, mas as emoções, essas subsistem. O que conservamos de um lugar, dizia, são as emoções que esse lugar em nós despertou, e os lugares que recordamos estão cheios da maior de todas as emoções perdidas: a da juventude.” (p. 41)

“A intriga e a má-lingua são o que há de mais engenhoso na vida. Caminham sem rumo, numa geometria confusa, nascidas do ócio e multiplicadas por uma espécie particular de ódio, de ciúme, de despeito.” (p. 63)

“(…) Sou desconfiado desde que me conheço. Tenho razões para isso (…) Quando fui entregue à vigilância de Jesuina, a convivência com os outros rapazes e raparigas alterou-me o carácter triste mas não modificou o nó que me apertava a alma. (…) Mas estou contente com o que consegui do mundo. Não tenho propensão para o mistério e fecho os meus pensamentos num mutismo que muitos presumem ser fragilidade ou insegurança. (…) Aceito sem reservas quem se atém, ferozmente, à sua intimidade. A intimidade e o corpo são as únicas propriedades privadas do ser humano. (…)” (p. 99)

“[Nunca quis muitas coisas. O que forma a minha e a tua vida foi a atracção mútua, embora nada nos aproximasse. Nem em dúvidas nem em certezas éramos semelhantes. Acreditavas em Deus; eu não só ignorava a Sua existência: desprezava-a. Hoje, admito que esse desprezo talvez contivesse algo de receio e de atracção. Como a morte: atrai-nos enquanto a repelimos. Detestavas os meus pequenos prazeres, fizeste-me amargar muitos deles com implacável zombaria: livros, músicas, filmes. Não merece a pena nomear as nossas divergências. Provínhamos do mesmo sítio, mas não pertencíamos aos mesmos sonhos.]” (p. 113)

 

Sinopse

Revisitação de um tempo e de um lugar que não existem para lá da memória, As Bicicletas em Setembro é uma viagem à juventude. Mas o que nos fica para além da memória, se a memória, ela própria, mais não faz do que atraiçoar o passado, limpando-o do que não gostamos? Num bairro lisboeta inventa-se a felicidade em jogos de cartas numa obscura taberna, descobre-se a medo a iniciação sexual, vivem -se os pequenos dramas de um quotidiano triste, expõe-se a perversidade das relações humanas, sonha-se além das imagens que as nuvens vão construindo. Em jeito de homenagem, também, ao poeta Eduardo Guerra Carneiro, há ainda neste livro espaço para os sentimentos, para a partilha, para os afectos. E para a perda e para a solidão, porque ambas se confundem com a própria natureza humana. Metáfora de um tempo que já não existe ou dos sentimentos que vamos, a cada geração, renovando, As Bicicletas em Setembro é uma obra povoada de imagens e lirismo intensos que confirma, uma vez mais, a importância de Baptista-Bastos na Literatura Portuguesa Contemporânea. Para gáudio do leitor.

 

Oficina do Livro, 2010

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