Crónica de uma Morte Anunciada – Gabriel García Márquez

Crónica de uma morte anunciadaTenho um gosto particular pela leitura da escrita da América Latina, na qual reconheço traços únicos que me encantam. Tenho, ainda, uma particular predileção por vários autores sul-americanos. A escrita fluída e simples, rica daquela imaginação extraordinária que carateriza o realismo mágico, tornam a leitura destes autores especial, e contrasta claramente com a escrita, diria, europeia. Uma escrita mais pesada e, por vezes, para mim, excessivamente rebuscada, em que a forma se sobrepõe à história e às ideias.

Gabriel García Márquez é, também para mim, um dos expoentes máximos dessa escrita das emoções, da magia, do deslumbramento, da simplicidade das ideias. Uma escrita de encantamento e que me encanta. Em cada livro seu regresso à sua escrita como quem regressa a casa.

“Crónica de uma Morte Anunciada” tinha sido, até agora, uma leitura adiada. A edição comemorativa no âmbito de ‘Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura 2017’, pelo Público acabou por proporcionar o momento.

Este é um livro, baseado num caso verídico, que nos remete para toda a história em flashback, quando 20 anos depois um amigo tenta perceber porquê. Quando começamos a leitura sabemos que Santiago Nasar foi morto, aliás, toda a gente sabia que Santiago ia morrer… “nunca houve morte tão anunciada”… todos o sabiam menos Santiago.

Ao longo das páginas tentamos perceber como tudo se passou e a veracidade dos factos que levaram à sua morte… será que o saberemos?
A mestria de Garcia Márquez prende-nos às palavras e transporta-nos quase de um fôlego até ao final. “Crónica de uma Morte Anunciada” leva-nos aos trópicos e às suas vivências, à sua magia e encanto e a uma morte tão violenta que impressiona pela sua descrição.

 

Excertos

“Durante anos não conseguimos falar de outra coisa. O nosso coportamento diário, até então dominado por tantos hábitos lineares, começara subitamente a girar à volta de uma mesma ansiedade comum. Surpreendiam-nos os galos do amanhecer quando tentávamos ordenar os inúmeros acontecimentos fortuitos encadeados que tinham tornado possível o absurdo, e era evidente que o não fazíamos por um empenho de esclarecer mistérios, mas porque nenhum de nós podia continuar a viver sem saber exactamente qual o sítio e a missão que lhe designara a fatalidade” (p. 101)

“(…) As notas à margem, e não apenas pela cor da tinta, pareciam redigidas com sangue. Estava tão perplexo com o enigma que lhe tocara em sorte, que frequentemente incorreu em divagações líricas contrárias aos rigor do seu ofício. Acima de tudo nunca lhe pareceu legítimo que a vida se service de tantos acasos proibidos à literatura, para que viesse a cumprir-se sem entraves uma morte tão anunciada.” (p. 104)

“(…) A folhas 416, de seu próprio punho e com a tinta encarnada do boticário, redigiu uma nota à margem: ‘Dai-me um preconceito e moverei o mundo’. Sob essa paráfrase de desalento, com um traço feliz feito com a mesma tinta de sangue, desenhou um coração trespassado por uma flecha. (…)” (p. 105)

“(…) O juíz instrutor  procurou ao menos uma pessoa que o tivesse visto, e fê-lo com tanta persistência como eu, mas não se encontrou nenhuma. Na folha 382 dos autos escreveu outra nota à margem: ‘A fatalidade faz-nos invisíveis’. O facto é que Santiago Nasar entrou pela porta principal, à vista de toda a gente, e sem fazer o que quer que fosse para não ser visto. (…)” (p. 117)

 

Sinopse

Vítima da denúncia falaciosa de uma mulher repudiada na noite de núpcias, o jovem Santiago Nasar foi condenado à morte pelos irmãos da sua hipotética amante, como forma de vingar publicamente a sua honra ultrajada e sob o olhar cúmplice ou impotente da população expectante de uma aldeia colombiana: é esta a história verídica que serve de base a este romance, e que, logo nas suas primeiras linhas, é enunciada. A capacidade de Gabriel García Márquez em reconstruir um universo possuído pela nostalgia, mágica e encantatória da infância e a sua genial mestria em contar histórias fazem deste romance mais uma das obras-primas que consagraram definitivamente este autor.

 

Leya, 2017

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