A Avó e a Neve Russa – João Reis

João Reis opta, aqui, pelo caminho mais difícil: escolhe, como narrador, um menino de dez anos eaavoeaneverussa mantém, ao longo de todo o livro, o tom da inocência deste confrontada com os factos, muitas vezes nada suaves, da vida que o rodeia. Para complicar ainda mais as coisas, este não é um menino de dez anos qualquer. Percebe que os adultos têm uma capacidade de compreensão muito limitada (é preciso ter muita paciência com eles) e uma iniciativa ainda mais deficiente. Coitados, não têm culpa, mas ele é que não pode ficar imóvel enquanto a sua querida avó Babushka definha sem que ninguém lhe acuda, com os pulmões destruídos pelos ventos atómicos de Chernobyl. Logo, cabe-lhe a ele tomar uma atitude. E, enquanto se prepara para fazer o que for preciso para salvar a avó, vai reflectindo sobre as grandes questões da humanidade, com uma candura desconcertante e, ao mesmo tempo, uma humanidade que nos faz envergonhar dos nossos corações empedernidos.

É impossível não rirmos até às lágrimas com algumas das confusões deste narrador, e com a perplexidade que essas confusões causam nos adultos à sua volta. Mas também é impossível não nos comovermos com a simplicidade com que ele encara tanto problemas terríveis como as pequenas contrariedades do dia-a-dia.

E é aqui que entra a mestria de João Reis. É a escrita de João Reis que torna este livro único. Há muito tempo que não me acontecia chegar ao fim de parágrafos e relê-los uma e outra vez, só para me deliciar com a forma como estão escritos. Estas palavras ressoam com ecos de tudo o que nos foi ensinado na infância e depois foi sendo abafado pelos condicionalismos da vida adulta: a ingenuidade, claro, mas também o respeito pelos outros, mesmo que quase nos exasperem com as suas limitações (achamos nós), o esforço por não os ofender, mesmo em susceptibilidades que não compreendemos, a generosidade, o altruísmo, a rectidão, o desejo de que a sociedade seja justa… acredito que este livro foi escrito pela criança interior que o autor soube preservar, e que se dirige à criança que ainda sobrevive dentro de cada um de nós. A medida em que nos deixaremos tocar por ele depende do quanto dessa criança deixámos que sobrevivesse, adormecida mas capaz de reconhecer a voz de uma sua igual.

 

Excertos:

“As senhoras da comissão das autoridades vieram cá a casa e não encontraram nada que nos fizesse mal. Lembrei-me de arejar bem a sala e os quartos para que não sentissem o fumo das drogas medicinais do Andrei. Podem ser farmaceutas, mas não são permitidas pelas autoridades do Estado. Li num livro que o Estado somos todos nós. A mim, nunca me perguntaram se eu achava que as drogas deviam ser permitidas. Eu acho que sim, se aliviam as dores e não cheiram pior do que os cigarros do tabaco nem são o cheiro mau que o Andrei tem nos pés ao descalçar-se quando chega do trabalho. Parece-me que as pessoas adultas fazem confusão com estas questões das legalidades, porque, como sempre, há emoções que lhes prendem os pensamentos. Também acho que deveriam permitir pelas autoridades os abortos bem feitos. Assim tudo era mais fácil e não havia abortos mal feitos, que enchem a cidade, como se queixa o Andrei, aos berros no quarto – «este aborto incompleto» para aqui, «aquele aborto mal feito» para acolá, vejo-lhe as palavras através das fumaças que ele puxa -, para além de se fazer negócio e ajudar no capitalismo. Este é o arqui-inimigo do comunismo inventado na Antiga-Soviética, e já se sabe como eles mexem nos ares atómicos e estragam a vida às pessoas inocentes. Por outro lado, e pensando bem, eu também poderia ser um aborto, já que sou o filho indesejado, como diz o Andrei. Nesta vida é difícil saber o que é certo.” (págs. 26-27)

 

“O Jean-Pierre será um grande político quando for adulto e trabalhar, e só está nesta escola para analisar as pessoas do povo mais baixo, que somos nós. Ele já o disse, e acredito. No fim de contas, já os antigos escritores da China e de outros países velhos diziam para conhecermos bem o nosso inimigo e o mantermos mais perto de nós do que os amigos, e é por isso que um político em adulto como o Jean-Pierre tem de ter o povo mais baixo perto de si, de maneira a atacá-lo com mais força assim que caminhar bem alto.” (pág. 36)

 

“Eu sei que sou novo e talvez não perceba bem todas estas coisas, embora o tente ao ler muitos livros e ao ouvir os ensinamentos dos mais velhos, que estão mais perto de morrer e, assim, de ser História. A verdade é que fiquei muito revoltado. É certo que estamos longe dos bons velhos tempos, mas terá de haver alguma justiça, ou ficamos como no comunismo da Antiga-Soviética, onde podíamos ser enviados para um gulasch sem aviso e nunca mais voltar nem falar com ninguém, e isto só por não gostarem de nós ou não sermos cegos para a política. Vivemos num país civilizado e desenvolvido, e não foi para isto que criaram o capitalismo com liberdades. E o que se segue à carta? A ruína da sociedade, o apocalipse, as fábricas atómicas… A Babushka não pode viver com o medo de lhe aparecerem aqui os senhores comunistas, ah, isso não. (Nota: Consultar o pope Verenich quanto ao apocalipse. Tenho algumas dúvidas sobre a data de início.)” (pág. 40)

 

Elsinore, 2017

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