O Ruído do Tempo – Julian Barnes

oruidodotempo
Gosto tanto da escrita apurada e sintética de Julian Barnes. Sem falhas. Ritmada. Como uma bela música. Desta feita sobre a vida e obra de Dmitri Chostakovich, um importante compositor russo do tempo do estalinismo, atormentado e manipulado pelo poder, que o ameaçava e punia quando não agradava ou bajulava e premiava quando cedia.

Dividido em três partes, começa No Patamar quando de malas feitas aguardava que o viessem buscar a meio da noite.

“Todo aquele esforço e idealismo e esperança e progresso e ciência e arte e consciência, e acaba tudo assim, com um homem de pé junto a um elevador, com uma pequena mala que contêm cigarros, roupa interior e pó dentrífico; ali de pé, à espera de ser levado.”   (pag. 52)

Prossegue No Avião, quando anda em digressão pelos Estados Unidos coagido a atuar conforme é determinado pelo poder.

“A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo. ”   (pag. 104)

“O que podiamos construir contra o ruído do tempo? Só essa música que está dentro de nós – a música do nosso ser -, que é transformada por alguns em música real.  Que, ao longo das décadas, se for suficientemente forte e verdadeira e pura para afogar o ruído do tempo, se transforma no murmúrio da História.”    (pag. 138)

E termina No Carro depois de ter suportado todas as humilhações e aspirar à morte como forma de libertação.

“Toda a sua vida confiara na ironia. (…) E uma parte de nós acreditava que, enquanto pudéssemos confiar na ironia, conseguiríamos sobreviver. (…) No entanto, já não tinha tanta certeza. (…) A ironia, já percebera, era tão vúlnerável aos acasos da vida e do tempo como qualquer outro sentimento. (…) E a ironia tinha limites. Por exemplo, não se podia torturar e ser irónico; ou ser vitima de tortura e ser irónico. (…) Se virássemos costas à ironia, ela petrificava em sarcasmo. (…) O sarcasmo era a ironia que tinha perdido a alma.”  (pag. 186-188)

Narrativa inteligente, subtil e irónica, que me encanta. Que me dá que pensar nos tempos que correm. Poderia ser uma leitura pesada mas o talento de Julian Barnes não deixa, apesar de abordar a relação do Poder com a arte e os artistas, assim como a violência mesmo que esta não seja fisica sobre o homem e a sua humanidade.

Sinopse:

Em janeiro de 1936, Estaline assistiu à apresentação da muito aclamada ópera de Chostakovich, Lady Macbeth de Mtensk, no Teatro Bolshoi, em Moscovo. O compositor ficou muito perturbado com a intempestiva e prematura saída do líder do camarote, acompanhado pela sua comitiva. Dois dias depois aparecia no jornal Pravda uma crítica com o título «Chinfrim em vez de Música», escrita provavelmente pela pena do próprio Estaline. Diz Julian Barnes sobre o livro: «A colisão entre Arte e Poder – e o exemplo específico de Chostakovich – é o coração do meu romance. Chostakovich foi, durante meio século, o compositor mais celebrado da União Soviética, desde o sucesso mundial da sua Primeira Sinfonia, em 1926 (tinha ele 19 anos), até à sua morte, em 1975. No entanto, ele foi também o compositor que, na História da Música ocidental, foi mais perseguido, e durante mais tempo, pelo Estado e que sofreu pequenas e caprichosas interferências e ameaças de morte, passando por uma longa e constante coação e intimidação. Em muitas ocasiões, sob a ditadura estalinista, Chostakovich temeu pela sua vida, com razão. […] “A História, assim como a biografia, irá desvanecer-se. Talvez um dia, fascismo e comunismo sejam apenas palavras num livro de texto. Nessa altura […], a sua música será apenas música.” À medida quo o ruído do tempo diminui, é mais fácil ouvir melhor a música de Chostakovich. O melhor sobrevive. Também é mais fácil ver o homem propriamente dito: complicado, cheio de conflitos e de princípios, que se condena, leal, teimoso, astuto, divertido, sarcástico e pessimista, cuja existência consistia inteiramente na sua música.»

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