«Os sinais do medo» de Ana Zanatti – Opinião

Flávia, ou melhor a Tia Flávia e a sua Rosarinho, bem como Maria do Carmo e a sua sobrinha Rita, são todas elas personagens deste «Os Sinais do Medo», a homossexualidade é o tema central, ou pelo menos o que movimenta o enredo. Luis e Paulo vivem momentos tensos e relações complexas, já que a orientação sexual vai hipotecar algumas relações familiares.

A família, a carreira, a religião, a sociedade e a dificuldade de aceitação, própria e de outros, condiciona estas vidas, estas e outras, que o que não falta a este romance são personagens, mesmo que só tenham uma ou duas linhas a elas dedicadas.

Este “sinais do medo” é muito um juntar de solidões e de relatos que encaixam demasiado bem uns nos outros e talvez isso seja o que me fez desgostar do livro a partir de determinado ponto.

” – Falar a sério não significa falar só de dramas. Também há alegrias profundas, sonhos, fantasias que é bom partilhar”

Pois, era exactamente mais disso que eu também queria e esperava encontrar.

Os primeiros capítulos têm passagens muito boas e um ritmo que cativa o leitor e há toda uma linha temporal que andamos à procura para situar momentos decisivos para aquelas personagens e em que fase da história se irá desenrolar a maior parte do enredo. No entanto, algumas dezenas de páginas depois percebemos alguma previsibilidade na história e a introdução de diálogo e alguma repetição dos sinais, dos medos, das preocupações, vão cansando o leitor. Ainda assim, Zanatti tem pasagens muito bem conseguidas que dão retratos muito particulares das personagens e dos medos que vivem.

“Desde sempre ele lhe dera a impressão de viver escondido nas bainhas dos vestidos da mãe com medo que o seu calor lhe faltasse.”

Faltar, falta muita coisa a estas personagens, no seu todo, pretendem passar para o leitor a comiseração e o desprezo familiar, a condenação social, a indignação e a troça em olhares e comentários e toda uma luta futura ou até a existência do próprio futuro. A dor, os sentimentos feridos, o orgulho amachucado, o íntimo revisitado, entre outras emoções são aqui descritas, mas não são propriamente sentidas, ou seja, é narrado, apresentado ao leitor, mas as acções e o decorrer da narrativa não deixam que seja o leitor a descobrir. Digamos que é tudo dado e corre o risco da superficialidade.

“Foi-me fácil entender que amar o próximo não passa duma frase sem sentido enquanto o medo andar à solta.”

Eu diria também enquanto a falta de auto-compaixão toldar a nossa empatia para com o próximo, o medo ganhará sempre terreno.  Pior ainda quando esse medo e essa falta de empatia está dentro de casa e este “sinais do medo” está recheado de solidões impostas e falta de cumplicidade familiar.

“Qualquer tentativa para arejar o espírito dos meus queridos pais, era como tentar espetar um alfinete numa viga de aço…”

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