«Não terão o meu ódio» de Antoine Leiris – Opinião

Julgo não ser fácil opinar desta leitura sem que se fale em emoções ou se apele a elas. Aliás, quase não se tem vontade de escrever sem que se recorra às palavras, às frases, às imagens com que o livro nos bombardeia. Por um lado, ainda bem que o relato é curto, caso contrário tornar-se-ia insuportável. O medo sente-se quase a cada linha. A desilusão, a tristeza, a perda e a desorientação. Eles poderão não ter o ódio dele, mas ele ganhou, sem pedir, uma série de sensações e emoções que lhe pautarão o resto da vida.

“Agora, sabemos. Na altura, entre duas reviravoltas da história de que ele é o herói, compreendo por que razão não me anunciou que ela já tinha partido, nos braços dele. Compreendo que ele ainda não era o sobrevivente que hoje vejo. Continuava lá, encurralado naquela cena que nunca mais acabava. E quando me pede desculpa por não me ter conseguido dizer, não o recrimino. No filme dele, as personagens não morriam. Mas o filme não era dele. (…)

Sigo a história, minuto a minuto. Vislumbro o cenário. Registo tudo calmamente. Sei que o Mevil me perguntará em breve como é que a mãe partiu, sei que ele vai querer saber tudo. Por isso, porto-me bem. Escuto, como espectador, o drama da minha vida que já começou, que não esperou pelo narrador.

Quando ele acaba, falamos disto e daquilo para fingir que o mundo não se desmoronou.”

Mas desmoronou!

A 13 de Novembro de 2015 nos atentados de Paris, mais precisamente no Bataclan, Antoine perdeu Hélène e Melvil talvez tenha perdido uma parte dos dois e uma irrecuperável parte que era: “o três”.

“À esquerda, depois da praça central, surge a campa. Aproximamo-nos. Chegamos. Tenho toda a minha vida debaixo dos pés. Cabe nuns quantos metros quadrados de pedra, de frio e de lama. É pequena uma vida. Pouso a fotografia entre as flores brancas que constelam a pedra. Como numa nuvem de estrelas agarradas à noite. Uma noite sem Lua. Fechada no seu túmulo, ela nunca mais reaparecerá.”

O livro é pura poesia e dor. Talvez tenha um traço ténue de esperança, afinal existe um bebé de dezassete meses para continuar a criar, mas o medo persiste e pauta todas as linhas. Lemos com um aperto e pensamos por que motivo não pensamos mais em aproveitar a vida e aqueles que amamos. Mas a verdade é que coisas pequeninas e insignificantes nos roubam o sorriso e os momentos, pois continuamos a caminhar como se fôssemos imortais. No entanto, ler muitos livros destes para darmos mais valor ao que temos é meio caminho andando para ficar deprimido. A dor e a solidão que resta é atroz. Mói cá dentro.

“Devíamos dar coletes fluorescentes a todas as pessoas que queremos evitar. O pessoal do apoio psicológico está de colete, nessa manhã, o que me facilita a vida. Não quero falar com eles. Tenho a impressão de que me querem roubar. Querem tirar-me a infelicidade, aplicar-lhe um bálsamo de fórmulas feitas, para depois ma devolverem desvirtuada, sem poesia, sem beleza, insípida.”

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