«A avó e a neve russa» de João Reis :: Opinião

Em estreia absoluta na publicação de autores portugueses a Elsinore traz-nos João Reis e este seu romance de tom (só tom!) infantil «A avó e a neve russa».

Seguimos Russkiy (diminutivo nada xenófilo!!!) na sua saga por salvar a família, o que implica nada mais nada menos, que racionalizar nos seus dez anos de idade, uma ida ao México a fim de salvar a avó Babushka, sobrevivente do acidente nuclear de Chernobly.

“(…) e é assim que quero ser quando for adulto: mais seguidor da racionalidade do que das emoções, para não sofrer.”

Há toda uma geografia peculiar e mascarada da realidade, assim como num sonho-meio-acordado em que vive este rapaz de conhecimentos quase enciclopédicos, mas dono da ingenuidade e da inocência de quem, mesmo misturado e vítima de algumas dificuldades, vê ainda o mundo pelos olhos próprios da infância. Mas, sem nunca esquecer o peso de querer ser um «homenzinho».

“Quando se é velho, o sangue não chega às extremidades, e é necessário exterminar os pés com uma serra, ou os velhos ficam vegetais na cabeça, o que tem lógica se virmos os desenhos do corpo: o coração está sempre ao centro.”

“Ontem, antes de a Babushka ter o ataque de tosse que a fez dobrar-se em metade que é, tão pequenina…”

Perante a constatação do avanço da doença, o menino não entende a passividade da medicina, mas não baixa os braços. Recorre à filosofia, aos filmes, aos livros e a um rol de personagens que complementam muito bem toda a narrativa e justificam, digamos assim, a panóplia de ideias que lhe povoam a cabeça.

“Há que pensar em tudo muito bem pensado, e admira-me que o Matt não saiba estas coisas. Mas ele não tem televisão e não vê filmes, por isso, até se percebe que não saiba o essencial da vida.”

Esse essencial da vida, que reestruturamos à medida que vamos com esta personagem pelo avançar dos dias enquanto não neva e ficamos a pensar nas ideias simples, mas bem recheadas com as quais se perde a caminhar e a pensar na vida. E nisso João Reis quase nunca perde o rótulo inicial, o tom meio infantil e inocente é constante no discurso deste descente de quem veio do frio das neves russas.

“Um dia, quero também tirar uma fotografia a preto e branco, cheia de sombras e de luzes, para parecer misterioso e os meus filhos e netos e descendentes imaginarem aquilo que fui quando já não se lembrarem de quem eu era na realidade, e assim me tornar interessante e importante.”

Continuo a dizer que apesar do tom infantil e que por vezes nos faz soltar uma risada aqui e ali, há toda uma mão cheia de reflexões que nos fazem parar para pensar. Este é um livro no qual pegamos e temos dificuldade em largar. Apegamo-nos ao personagem e queremos viver com ele emoções que cruzam fronteiras e atravessam culturas.

“Ao dar um passo após o outro, tenho pena de que na cidade das partes suplentes não existam olhos menos tristes e pulmões mais fortes.”

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