“Breve História de Sete Assassinatos” de Marlon James

 

 

breve_historiaMarlon James' previous books include The Book of Night Women and John Crow's Devil.

 

“Deixai-vos, pois, ficar a boiar no conforto da superfície de vós mesmos. Não queirais saber qual é a criatura ignóbil, o pequeno monstro, que provavelmente se vos deparará quando imprudentemente abrirdes a vossa própria caixa de Pandora.”

Cristina Drios in “Adoração”

“A arte é o maior crime da humanidade, pois vai contra todas as leis e contra tudo o que é estabelecido e seguro.

”Afonso Cruz in “O pintor debaixo do lava-loiças”

Eu não queria ler este livro. Mais, tinha decidido firmemente jamais lê-lo, ponto final. Que há livros que não são para todos e “Breve História de Sete Assassinatos” não era, com certeza, para mim. Mas, como diz a sabedoria do povo, nunca digas desta água não beberei ou pela boca morre o peixe e, contra todas as expectativas, dou por mim a ler exactamente o tal romance que julgava ter rejeitado. Porquê? Porque a curiosidade é um bichinho-carpinteiro inquieto e tramado e as primeiras frases da primeira página apanharam-me desprevenida, posta em sossego dentro dos limites seguros das minhas preferências literárias, e assim lançaram um feitiço poderoso  sobre uma leitora mais que renitente: agora preciso mesmo de ler este livro!

Um livro que tinha tudo para me desagradar e passo a enumerar: detesto livros sobre mafiosos, traficantes e toxicodependências; detesto livros sobre assassinos psicopatas pejados de palavrões; detesto livros dominados por actos de violência, narrados em catadupa imparável, cada qual mais abjecto que o anterior. Em suma, detesto romances que me conduzam à escuridão mais sórdida da natureza humana. Pois é…no entanto, mal peguei nesta história não descansei enquanto não cheguei ao seu final.

Ah! Para além disto, também há a Guerra Fria, espiões da CIA e políticos, Bob Marley e muita música, tudo compondo uma espécie de fresco sobre a história recente da Jamaica.

Não foi uma leitura fácil, muito menos prazenteira, assemelhou-se mais a uma sucessão de murros no estômago metafóricos tão fortes que quase me apeteceu espreitar a barriga para ver se não havia lá marcas. Hesito em dizer que gostei de ler este livro e, contudo, pasmo ante a mestria da sua concepção, espanto-me com a escrita extraordinária de Marlon James marcada pelo distintivo de um contador de histórias exímio: a capacidade de funcionar como “botão de transporte” para aquelas épocas e locais, a facilidade com que transmite a quem lê um caleidoscópio de emoções e sensações.

As várias vozes que povoam este romance evocam a cacofonia e o caos, nada há aqui de belo e a sua estética parece provir do grotesco, até do inominável, ou quase inominável. Se há livros que desconcertam e incomodam, para mim, este é seguramente um deles. Foi um abanão, uma chamada de atenção, um alargar de limites auto-impostos sobre o que ler ou não ler. Foi, certamente, pretexto para reflexões acerca da natureza do Homem e do mundo, sobre a tremenda e obscena miséria material em vive mergulhada parte da humanidade apesar do progresso imparável da técnica e da abundância em que outros vivem.

Se recomendo a leitura deste “Breve História de Sete Assassinatos”? Sim, claro mas preparem-se para uma viagem realmente alucinante ao fundo do pior que reside em nós.

Sinopse:

VENCEDOR DO MAN BOOKER PRIZE 2015 “UM DOS MELHORES LIVROS DO ANO” EM 23 LISTAS (INCLUINDO NEW YORK TIMES, TIME E AMAZON) Jamaica, 3 de Dezembro de 1976. Sete assassinos de metralhadoras em riste entram de rompante na casa de Bob Marley. Apesar de ferido no peito, o cantor de reggae sobrevive. Os homens nunca foram descobertos. Mais de oitenta mil pessoas assistem ao concerto que Marley dá dois dias depois. Uma Breve História de Sete Assassinatos é um livro que revela um poder narrativo impar para explorar este evento quase mítico. Com uma acção que atravessa três décadas e vários continentes, narra as vidas de vários personagens inesquecíveis — miúdos da favela, engates de uma noite, barões da droga, namoradas, assassinos, políticos, jornalistas, e mesmo agentes da CIA. Uma Breve História de Sete Assassinatos foi considerado um dos melhores e mais extraordinários romances do século XX, abordando as questões do poder, do dinheiro, do racismo e da violência. «Uma Breve História de Sete Assassinatos é uma obra-prima.» [Chris Salewicz] «Um romance ao mesmo tempo temível, lírico e magnífico por um dos autores mais consagrados de hoje.»

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