A Máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares

 

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Seis números encontravam-se colados ao dado e dali não saiam. E não havia um sétimo algarismo, uma sétima hipótese. O limite era seis.

Era essa exactidão que o excitava, essa exactidão bem definida por limites inalteráveis que no entanto guardava ainda um espaço para as suas decisões estranhas , que na verdade não eram decisões. (…) A grande decisão que existia no jogo, era afinal essa decisão profunda e forte que é decidir que se aceita, decidir que se está pronto para a submissão absoluta, para a não interferência no desenrolar dos acontecimentos

Joseph Walser é um homem que vive à margem da sua própria realidade. De forma absolutamente voluntária escolhe ser um espectador e não um protagonista da vida. Para além dos jogos semanais de dados, “funde-se” com uma máquina mantendo com ela uma relação simbiótica, de subserviência, quase de amizade e tem uma peculiar colecção que guarda no quarto do filho que nunca teve.

Gonçalo M. Tavares é um dos escritores que considero mais desafiantes. Gosto da sua escrita, gosto da sua forma de falar de uma coisa enquanto fala de outra, gosto do domínio que tem da língua, da literatura e gosto acima de tudo do facto que ser um escritor que não poupa o leitor, que não escreve (só) para os leitores. Gosto das constantes reflexões que o autor nos propõe a cada passo.

Falta-me muito para compreender na totalidade os livros deste escritor mas facilmente lhe reconheço o génio.

Parece-me que a natureza humana, o bem e o mal, principalmente o mal, estão sempre presentes nos seus livros.

A relação do Homem com a Máquina é, de facto, um tema central neste livro mas é a relação do Homem com o Homem que me  despertou mais a atenção. Joseph Walser busca a solidão e total autonomia em relação aos outros.

Não tinha sequer uma pistola, mas eliminara a grande fraqueza da existência, fizera desaparecer a primária fragilidade da espécie: não possuía qualquer inclinação para o amor ou para a amizade!

E Walser não pôde deixar naquele momento de ser capturado por um orgulho: ele, sim, era um grande Homem, como defendia Klober, que conseguia estar separado de todos os outros, um homem verdadeiramente sozinho e individual.

Este foi um livro que não “digeri” nem fácil, nem rapidamente. Aliás, já o li há algumas semanas mas volta e meia volta-me à mente e obriga-me a reflectir. E esse é um dos principais objectivos da literatura, não é? Obrigar-nos a reflectir, pensar. Incomodar-nos.

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