Os Números que Venceram os Nomes – Samuel Pimenta

CAPA_sem cintaA espaços a prosa poética  suaviza a temática orwelliana de “Os Números que Venceram os Nomes”. A beleza da escrita de Samuel Pimenta não nos esconde, contudo, o paralelismo com o que podemos encontrar, já hoje… números que se vão sobrepondo aos nomes. Tantas vezes dizemos e ouvimos dizer que actualmente as pessoas são números, já não são pessoas…

Entre evocações de mitologia e o constante apelo à importância da poesia vamos descobrindo uma sociedade onde o isolamento, a solidão, a desconfiança e a delação se instalaram. E onde o controlo integral da vida e dos movimentos dos cidadãos pelo Estado é o mote. Onde se apagam memórias e se constroem novas referências.

Mas o que mais importa é que … “(…) os nomes, os poemas e as estrelas são a nossa única promessa de futuro.” (p. 73). Não podia estar mais de acordo com o autor. Os nomes, os poemas e as estrelas são, de facto, a nossa única promessa de futuro!

Um livro cuja leitura corre veloz, embora sem surpresas, mas de uma subtileza que me encantou.

Um livro sobre a importância de resistir, porque do caos nasce a luz… “do lodo nasce a flor de lótus” (p. 159). Um livro pleno de actualidade.

A ler!

Excertos

“(…) Os  nomes são uma babel de significados, assumem conotações ão diversas e são criadores de desordem. Os números organizam, um dois é um dois, não há dúvidas, mas sempre que se pronuncia Joana ou Guilherme, está-se a evocar uma infinidade de incertezas, de outros sentidos ou identificações. (…) Os nomes questionam, são terreno instável, flexível, mutável. Os números são rígidos, estáticos, definidores por natureza. (…) Os poderes instalados sabem-no. (…)” (p.14)

“Afinal, depois de os números terem dominado o mundo, o dinheiro tornara-se a principal aspiração de todas as pessoas.” (p. 19)

“(…) O velho respondeu, já ninguém quer saber dos livros, ninguém lê o que têm lá dentro, assim posso guardar aquelas folhas em segurança. (…)” (p. 72)

“(…) Talvez por conviver com um humano assim, a bela Mérope não brilhe tanto como as irmãs. Conviver com falhas humanas podem cansar-nos, pode roubar-nos a luz. Ou então é o contrário, talvez ela tenha escolhidobrilhar menos para que sejamos obrigados a procurar por ela, para nos lembrar que a verdadeira luz não se exibe, é discreta, recordando-nos que quem escolhe partilhar uma vida de luz com uma vida humana traz em si o verdadeiro amor. (…)” (p. 102)

“(…) Quem desconhece a sua identidade, quem tem apenas acesso a uma parte da informação, nunca poderá fazer escolhas de uma forma totalmente livre, falta-lhe informação essencial. (…)” (p. 122)

“(…) – Porque a verdade liberta, Arão, a verdade torna-nos mais livres. (…)” (p. 130)

“(…) Somos mais do que alguma vez imaginei, pensava ele. Sim, somos mais do que alguma vez imaginaremos. Somos imensos, mesmo que estejamos em casa, calados, sentados a ler. Mesmo que a nossa função no mundo seja, simplesmente, observar. Vigiar. Em silêncio. Mesmo que jamais encontremos alguém como nós. Sim, como nós, os que resistem. Os loucos e os génios que resistem. Os que se atiram de braços abertos para a frente dos tanques de guerra que devoram a estrada, os que ensinam a pensar, quando todos se esforçam para que se ensine somentea odebecer, os que abraçam as árvores diante da serra eléctrica, os que colocam flores nas espingardas, os que dão tecto, cama e comida aos sem-casa, os que escrevem e falam para repor a verdade, mesmo que saibam que podem morrer se o fizerem, os que salvam os riose os mares da sede que o dinheiro injecta nos cérebros, os que diante do horror protestam em forma de música e poesia, os que, ainda assim, amam o mundo quando o mundo só lhes dá razões para não amar. Os pilares da Terra. É isso que somos, os que resistem.” (p. 158)

Sinopse

Num futuro distante, comprovada matematicamente a existência de Deus, os homens são obrigados a trocar os seus nomes por números. Ergue-se uma ditadura global, em que todos são controlados e descaracterizados, uma sociedade de uma única religião, em que os algarismos definem tudo – pessoas, países, ruas, animais – , em detrimento da essência de cada um.

Um Nove Um Seis é um rapaz sozinho, que trabalha num call center, obsecado com o telemóvel – mais um cidadão anulado entre os milhões que levam uma vida programada, sob a vigilância do Estado. Até que, certa noite, um imprevisto encontro com um gato de rua lhe provoca um ataque psicótico, que leva as autoridades a fechá-lo num hospício.

Internado, Um Nove Um Seis partilha o quarto com um velho que lhe fala da resistência ao regime: um grupo de pessoas que se sublevam escrevendo poesia, recolhendo animais vadios e atribuindo-se nomes em vez de números. Com o velho e um gato como cúmplices, Um Nove Um Seis decide tentar descobrir quem é – além de um número num sistema de dados.

Neste surpreendente romance, Samuel Pimenta consegue, com uma destreza literária que nos prende do início ao fim, contar uma história empolgante, que, embora passando-se num futuro imaginário, questiona muitos dos problemas das sociedades contemporâneas – a substituição estéril de um mundo espiritual por uma realidade puramente material.

Marcador, 2015

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