«A Viagem Vertical» de Enrique Vila-Matas :: Opinião

“Senti-me de repente contagiado pelo encanto natural e pela queda livre e descida vertical para o Sul daquele senhor de Barcelona que dizia ser nacionalista e a quem o abandono da mulher o transformara em alguém que, de forma possivelmente inconsciente, começara a empreender uma lenta descida para o mundo dos deslocados e dos excêntricos.”

“Que destino nos revela a mão sem linha da vida?” (Al Berto)

Talvez esta seja a questão fundamental assim que começamos a ser puxados para esta viagem descrita por Enrique Vila-Matas. Com um humor peculiar, ficamos presos à história a partir do momento em que, entre alfaces e beringelas, um casal se mostra inflexível perante os ajustes que a vida lhes exige.

“- Tudo isto é por causa das alfaces e das beringelas, tenha a certeza. Isto disse Mayol e depois começou a alimentar a desesperada esperança de que a estranha atitude da mulher fosse passageira.

Mas uma semana depois, Mayol, refugiado num bar da Praça Letamendi (…) já sabia que lhe restavam poucas esperanças de que a atitude da mulher fosse passageira.”

A vida corre mal a Federico Mayol e a mulher não é o único dos seus problemas, já que os filhos do casal, especialmente o jovem e artista Julián, não partilham das inquietudes do pai e ainda o confrontarão com dúvidas e algumas verdades que Mayol não aceita bem e isso leva-o a partir.

Aliás, são várias as viagens que este septuagenário empreende para redescobrir o sentido da vida. E logo ele que supostamente nunca questionou os caminhos que foi seguindo.

“(…) sentiu que regressava em força à sua consciência a ideia trágica do sempre mutável que é o ato de recordar as transformações que as lembranças sofrem ao serem revividas, a dificuldade de dominar com plenitude total a memória do que foram os nossos dias (…)”

A narrativa de Vila-Matas espelha constantemente essa preocupação com as memórias e o que com elas fazemos, aproximando-nos ou não, dos outros e de momentos que podem ter sido decisivos e que só mais tarde, revivendo-os, aceitamos e acreditamos terem sido determinantes. Todo o livro em questão funciona muito como uma viagem de regresso e isso sente-se a partir do momento em que, entre amigos, o personagem é aconselhado a viajar apenas para locais onde já esteve. E isso é algo muito interessante na medida em que evoca aquilo que já fomos, provocando confronto.

Entre deambulações, que são várias, sente-se uma alargada critica social, uma constante avaliação da vida conjugal e da paternidade, mas nunca sem esquecer, a religião e a fé, a política e a ditadura e o peso da formação e da educação para o indivíduo que no final da vida sente que o rumo do seu próprio país e da família lhe ditou certas limitações.

“Como ninguém está contente com a sua própria vida, aquele que julga conhecer quem ou o que a estropiou, nunca se esquece do responsável por essa vida não ter sido como esperava.”

«A Viagem Vertical» está recheada de cenários hipotéticos, nas divagações e pensamentos que o personagem partilha, mas está também pejadas de cenários muito sólidos, quase como um roteiro que se abre na nossa mão e nos convida a deambular pelas cidades que Mayol visita, convidando o leitor, a perder-se nos becos e vielas, primeiro do Porto, depois Lisboa e por fim já na Madeira, mas talvez esse seja o destino mais metafísico desta viagem.

Entre algum alheamento e reflexão, somos levados para a intertextualidade que a critica em geral aponta às obras de Vila-Matas, neste livro em específico para alguns poetas portugueses. Em algumas passagens, mesmo que sem referências, a forma como o texto está construído apela a um certo encantamento pela poesia alheia.

“(…) tinha vinte anos e, nos primeiros meses, quando não estava no Internacional, dedicava-me exclusivamente a ler, a ler muito e a praticar a saudade, que era e é um sentimento que me encanta apesar de não saber muito bem o que consiste, e talvez por isso me agrade, porque pode ser o que se quiser.”

Até certo ponto vamos sempre querendo que a viagem vertical se referia a algo mais transcendente, ultrapassando a própria verticalidade entre os destinos escolhidos, mas um certo acaso altera o enredo. No entanto, daquela imaginação prolifera esperava-se um final mais ao jeito do episódio, “o assassino de taxista da Marginal”, que é talvez das partes mais humorísticas de todo o livro.

“Para chegar a essa reflexão, o taxista começou por fazer uma declaração extravagante, definindo-se como um pagão convicto.

– Cheguei a um momento da minha vida – disse, entre outras coisas, a Mayol – em que preciso de rezar. Por esse motivo inventei uns deuses e rezo a eles.”

A conversa extravagante e insólita estava só a começar e toda ela é um pouco como o livro, eufórica, difusa e dona de alguns mal entendidos, com uma pitada de desespero e saudade, mas também com uma boa dose de mistério e até um certo charme. Enfim, um pouco como a própria vida que é disso que o livro fala.

“- Não posso estar mais de acordo com Magris quando diz que escrever significa transformar a vida em passado, ou seja envelhecer.”

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