«A vegetariana» de Han Kang :: Opinião

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Han Kang, vencedora do Man Booker Internacional Prize traz-nos em «A Vegetariana» uma enredo familiar perturbante e simultaneamente onírico.

“Dormir em lapsos de cinco minutos. Mal deslizo para lá da consciência atordoada, lá está ele de volta – o sonho. Já nem posso chamar-lhe isso.  Olhos de animais a reluzirem com um ar selvagem, a presença de sangue, uma caveira desenterrada, aqueles olhos de novo. Uma sensação que me vem da boca do estômago. Acordo a tremer, as minhas mãos, preciso de ver as minhas mãos.”

Partindo de um sonho conhecemos Yeong-hye e a paranóia que lhe assombra os dias e a opção de se tornar vegetariana. Vítima às mãos do marido e de uma família tradicional o peso da sua decisão extravasa o aceitável e rapidamente a sua liberdade de escolha é posta em causa e o equilíbrio familiar é ameaçado. No entanto, não será bem isto que desestabiliza o leitor ou dá ênfase à narrativa, mas antes o mistério envolto no sonho e a bizarra luta de se manter vegetariana.

Já estando a acção suculenta o suficiente, a passagem para o segundo capítulo adensa o lado misterioso e ainda mais transcendente, não tanto pelo lado artístico ou a performance em si, mas antes pela forma como se gera a atracção de um homem por uma mulher. Neste acto, e pela voz do cunhado de Yeong-hye assistimos a uma outra fixação, também ela de origem meio surreal e até infantil, se bem que com contornos sensuais.

“(…) foi nesse preciso momento que ele foi atingido, como se de um raio se tratasse, pela imagem de uma flor azul nas nádegas de uma mulher, com as pétalas a abrirem-se. Na sua mente, o facto de a cunhada ainda ter uma mancha mongólica operou uma associação inexplicável com a imagem de homens e mulheres a fazerem sexo, e os seus corpos nus cobertos de flores pintadas.”

Nas palavras de Han Kang vamos sentido que a história espelha um elevado questionamento da normalidade ou do que será moralmente aceite e bem interpretado, porém, as diversas camadas que se vão somando aos acontecimentos revelam, a meu ver, uma enorme solidão e uma resiliente vontade de liberdade, mesmo que essa os condene a uma solidão ainda maior, também ela por camadas. Talvez possamos ainda dizer que toda a dissociação provocada por desejos menos usuais causarão, só por si, isolamento e desapego e logo mais solidão. Este é um livro pejado de gente só. Um enredo carregado de duras batalhas que estas três pessoas carregam a fim de tentarem ser mais livres, mesmo que isso não os liberte dessa solidão esmagadora, enloquecedora e opressora.

“Os vidros estão cobertos de vapor e, por isso, tira um lenço da mala e abre um círculo perfeito. Vê os pingos da chuva a fustigarem a janela, com a cadência constante em que só as pessoas habituadas à solidão reparam.”

Convêm alertar também para o facto e Kang ser capaz de cenários bastante bem descritos e recheados, mesmo que para tal só use uma a duas pequenas frases.

Kang é perita também em especular sobre a alma humana e a extensão do perdão e talvez seja essa a forma como termina o segundo capítulo, abra e feche o terceiro. E com essa extensão do perdão, da compaixão e do amor ao próximo nos deixe a pensar nos motivos pelos quais, gradualmente, ficamos mais sós e nos perdemos de nós por dar aos outros.

“Normalmente, desiste de dormir por volta das três da manhã. (…) Por fim,vai para o quarto dele e ouve alguns discos que ele por lá deixou (…) ou então aninha-se na banheira, vestida, e até consegue achar que afinal talvez a atitude dele não fosse assim tão incompreensível. Se calhar, só não tinha energia para se despir (….) Ficou surpreendida ao constatar que, por muito estranho que pudesse parecer, aquele espaço estreito e côncavo era o sítio mais acolhedor que havia no seu apartamento…”

Em suma, «A Vegetariana» é um excelente exercício de atravessar fronteiras entre a realidade, a loucura e o desejo enorme de liberdade, mesmo que vivida em momentos surreais, donos de rasgos de sensualidade, alguma imoralidade e até algum toque de terror. E nunca sem esquecer o peso da solidão.

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