Uma dor tão desigual :: Opinião

contos

Os contos povoaram o meu final de 2016 e alguns deles atravessaram o ano e continuam comigo, é o caso do conto «Jogo honesto» de Nuno Camarneiro que se encontra nesta colectânea. «Uma dor tão desigual» propõe-se a abordar a saúde mental, explorando as inúmeras fronteiras e as dificuldades associadas à depressão, solidão, demência ou até ao estigma que é a procura por ajuda profissional.

A colectânea reúne contos de oito autores portugueses, todos eles muito diferentes na forma e no conteúdo e de outra forma não podia ser, pois só assim espelha a diversidade que compõe a complexidade da mente humana.

De Richard Zimler fica-me um tango e um certa tristeza, mas também a resiliência:

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De Patrícia Reis em «A impossibilidade de ser livre» a assustadora realidade.

“Não sei como definir o bem, esse estado de bonomia apesar das agruras e penas duras da vida.”

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De Camarneiro fica-me a tudo, já que foi o meu conto favorito, mas a imagem de fiz na minha cabeça de um homem mixando comprimidos e anotando percentagens e probabilidades como se fosse o euro milhões e não uma tentativa de suicídio… é simplesmente brilhante e igualmente muito negra.

“Os pensamentos e as emoções desviados como trânsito de uma via impedida, orientados para a frente, para o futuro, para novas possibilidades que conseguia imaginar e até cumprir. E eu sempre a vi partir, transtornado, preso a tanta coisa, parado num engarrafamento sem fim à vista.”

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Na «Chameada de pássaros» por Maria Teresa Horta (MTH) reencontrei «Meninas» e toda a desafeição materna que pauta os contos de MTH, um desamparo próprio de cada um quando caminha, constantemente atrás dos seus próprios passos, dos passos dos seus entes queridos, aqueles que nunca consegue atingir.

“Sem conseguir explicar a si mesma aquela sensação de excesso que de súbito a cumpre, fazendo-a sentir-se a mais onde quer que esteja, sem pertencer a parte algum, nem caber em nenhum lugar. Desafeiçoada ao disfarce da vida.”

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Pegando nas palavras de MTH, há mais desafeiçoados do disfarce da vida dentro desta colectânea.  Nos contos de Afonso Cruz (AC) ou de Gonçalo M. Tavares (GMT) encontramos os desafeiçoados do costume, desiguais dos demais, tão cheios de histórias e filosofias, tentado assim apontar um caminho alternativo… talvez o da literatura, da filosofia e até o da religião.

“O avarento ao não prescindir de coisa alguma, da maior à mais insignificante, abdica de tudo, pois não desfruta de nada.” AC

No conto de Afonso Cruz há uma outra ideia na qual fico a pensar. Os buracos, umbigos de coisas por preencher, não falhas, não rachaduras ou defeitos, mas uma incompletude passível de ser preenchida, colada a outro, ornamentada, trabalhada… e lembrou-me esta imagem e ensinamento japonês:

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Neste mini manifesto filosófico pelas insignificâncias como mote para toda a ressurreição possível e um exercício criativo que é levantar-se um ser humano danificado. Foi assim que vi, esse desejo de unir a individualidade de cada um, mas sem deixar de olhar para ela como o que é digno de partilharmos com os outros.

Ou ainda a brilhante ideia de GMT de termos na cabeça, no topo dela, o caminho para a salvação e a ligação que ele faz com a imagem de um menino de 7 anos a acenar aos aviões como que pedindo ajuda para saber qual era o mapa, é simplesmente maravilhosa.

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No conto de Dulce Maria Cardoso (DMC), a quem foi muito bom retornar 😉 não me saiu da cabeça um certo regresso a um livro desigual, «O meu irmão» de Afonso Reis Cabral e a temática da família, deixando sempre a questão: “Até que ponto nos define a família? essas outras metades de nós?”

“Não dava sequer conta da repulsa que o irmão causava aos outros. Mas chega sempre o momento em que se repara no olhar deles, e depois nunca mais deixa de se reparar, chega sempre o momento em que o olhar dos outros fica a contaminar o nosso como um vírus maligno.”

DMC explora um outro lado também bastante inquietante e muito presente, o dos medos:

“O medo e a curiosidade são vigiados e reprimidos como doenças, em vez de serem tratados como sobras da infância.”

Há ainda a ideia de ver e ser visto, pensando nas personagens que desempenhamos aos olhos dos outros, como que construindo todo um enredo só através de um cruzamento de olhares.

“Afinal, talvez eu não conhecesse bem o meu amigo de há tantos anos. Era então tristemente verdade que não há maior nem mais intransponível distância do que a que existe entre duas pessoas, pensar que se conhece é um disparate.”

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Do conto «Jaca» de Joel Neto, para além da história em si, retiro uma passagem que acho extremamente actual e até preocupante:

“Quer dizer, está a chegar a idade, não? (…)«Há uma idade idade para cada doença. Aos seis são disléxicos e aos oito hiperactivos, aos doze têm Asperger e aos quinze sintomas de autismo. E, antes de finalmente serem apenas deprimidos, aos dezoito são bipolares e aos vinte e três esquizofrénicos, não é assim?»”

Julgo que a frase resume muito bem o que se passa com a sociedade actual e a forma como se encara tanta a adolescência e a entrada na vida adulta, como a banalidade da possível doença psíquica. Daí que talvez, mais tarde, seja tão difícil pedir ajuda.

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