A Vegetariana – Han Kang

avegetarianaPensei em não escrever sobre este livro, que é um conjunto de três histórias. Ou melhor, uma história em três versões, a três vozes. E, apesar de ter gostado muito de o ler, pensei em não me manifestar por recear não ser capaz de desenvolver ideias coerentes sobre esta leitura, por ser difícil de expôr, talvez até de compreender.

A Vegetariana vai muito para além da história de uma mulher que não quer comer carne, ou que deseja transformar-se numa árvore. É talvez a história dessa mulher e do seu desejo de ser dona das suas vontades. De querer controlar o próprio corpo, quando mais nada controla na sua vida.

Tem de obedecer ao pai e ao marido, de se vestir como os outros desejam, de ser a esposa para que foi preparada. Tem de viver para as vontades dos outros e de acordo com as expectativas que criaram para ela. É uma prisão onde, apesar de não estar só, nada controla. Deseja a morte como fuga, mas não lhe é permitido morrer. A estranheza de não comer é encarada como loucura e ninguém lhe sente o sofrimento nos silêncios.

Para quem lê o sufoco é constante. Os gritos de socorro da mulher que se quer transformar em árvore para abandonar a sua própria vida são perturbadores. Ouvimos do lado de cá das páginas o que a família ignora. E é revoltante. É clara a angústia de quem é dado como louco, e a forma como acaba por ceder à loucura. Por ser o único caminho.

A Vegetariana questiona costumes e padrões de forma tormentosa, levando ao limite o conceito de normalidade e dissecando a dor de não ser aceite. É um grito (silencioso) de revolta.

Gostei bastante, mas estou certa que não agradará a todos os leitores. Os mais exigentes não o devem deixar escapar.

Sinopse

“Uma combinação fascinante de beleza e horror.
Ela era absolutamente normal. Não era bonita, mas também não era feia. Fazia as coisas sem entusiasmo de maior, mas também nunca reclamava. Deixava o marido viver a sua vida sem sobressaltos, como ele sempre gostara. Até ao dia em que teve um sonho terrível e decidiu tornar-se vegetariana. E esse seu ato de renúncia à carne – que, a princípio, ninguém aceitou ou compreendeu – acabou por desencadear reações extremadas da parte da sua família. Tão extremadas que mudaram radicalmente a vida a vários dos seus membros – o marido, o cunhado, a irmã e, claro, ela própria, que acabou internada numa instituição para doentes mentais. A violência do sonho aliada à violência do real só tornou as coisas piores; e então, além de querer ser vegetariana, ela quis ser puramente vegetal e transformar-se numa árvore. Talvez uma árvore sofra menos do que um ser humano.”

D. Quixote, 2016

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