«Essa puta tão distinta» de Juan Marsé :: Opinião

«Descobrimos a verdade, e a verdade não faz sentido.»

G.K. Chesterton

Começamos pelo fim, digamos assim. A descoberta da verdade. Tal resolução não nos salva, não sara as feridas que o tempo acumulou, não encerra a máscara que usámos! É apenas a verdade e, muitos anos depois, que importância tem? Que sentido traz ao agora?

“Sempre acreditei que a verdade, na ficção como na vida, nasce às vezes do que não tem sentido e oferece-se-nos como um presente.”

A verdade pode e é muitas vezes, asséptica, testemunhal e até convencional. Então para que a queremos? Será o desejo da verdade uma veleidade da memória? Uma exigência das reminiscências e rasteiras que a memória nos passa?

Que verdade vem com a memória? Quantas nuances se encarrega a vida de nos dar para satisfazer a cumplicidade criativa a que a memória apela?

É nessa cumplicidade criativa que julgo que este livro se insere e se torna peculiar. É preciso descodificar e descobrir os factos verídicos de um crime, resolvido com contornos menos transparentes, para produzir um guião para um realizador caprichoso. Um escritor reconhecido, mas relutante, decide aceitar o trabalho e proceder à tal investigação, tanto a documentalista como a presencial já que o assassino ainda é vivo. Fermín Sicart passa então a encontrar-se com o escritor e a sua cinéfila empregada e vão libertando, a pouco e pouco, doses de informação para uso doméstico.

O livro demora-se, o guião atrasa-se e o leitor (talvez!?) vá perdendo o fôlego e a certa parte pensa em ir ver ou rever «Gilda», filme o qual estava a ser projectado aquando do homicídio no cinema Delícias. Barcelona, 1946.

Verdade seja dita que o rumo que o livro segue, infelizmente, é decrescente. Começa com todo o impacto, como se de um ataque emocional se tratasse, promovendo uma leitura, inicialmente, imparável. No entanto, a distorção inicial que motiva o leitor, torna-se arriscada ao continuar, pois já não surpreende. Vale-nos sempre a azáfama cinéfila e capítulos com trechos fabulosos. As considerações sobre a palavra e a ligação à política, as cenas pensadas para o potencial filme ou as que descrevem o «Gilda», são partes extremamente bem conseguidas.

“(…) até que comecei a perguntar-me quanto de fantasia haveria na sua melancólica e magoada evocação. (…) numa memória sonâmbula como a dele, reelaborada por instâncias alheias tão suspeitas e nefastas, as incongruências, os lapsos e os enganos podiam ter tanto ou mais interesse que as verdades (…)

Agora, enquanto estava a ouvi-lo, pensei que o seu infeliz histórico clínico desmentida aquele célebre máxima de Friedrich Richter segundo a qual a memória é o único paraíso de onde não podemos ser expulsos. ”

Será a memória um paraíso?

Julgo que não dá para contornar esta pergunta e ela ressoa em nós, constantemente, o livro inteiro.

“Quanto ao resto, eu sabia perfeitamente que recordar é interpretar, é ver as coisas passadas de uma determinada maneira.”

A narrativa segue entre relatórios, apresentação de personagens, dúvidas e enigmas, mas o lado revelador ou a promessa da verdade e alguns retoques das cenas,  não são suficientes para garantir o interesse do leitor. Julgo que ficaremos presos ao inicio ou ao duplo início e ao jogo de adivinhação cinéfila, tentando nós responder a Felicia. Talvez das personagens mais interessantes. Ou ela, ou o potencial de Encarnita.

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