«O Jantar» de Herman Koch :: Opinião

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– um restaurante difícil de reservar

– dois casais de meia idade

– uma pitada de mediatismo

– uma mão cheia trivialidades

– violência verbal em temperatura controlada

– crimes q.b.

– uma boa dose de aparências para polvilhar

*

Convêm que pegue neste Jantar logo com um bom digestivo, forte, caso contrário ficará empanturrado com tanto osso duro de roer e alguns condimentos mais abrasivos. Herman Koch não poupa as suas personagens e coloca-as de tal forma na ementa que faz com que o leitor se sinta indeciso, entre qual delas escolher para odiar mais. Digamos que este evento familiar está recheado de pratos de assinatura, mas com um sabor e conteúdos indigestos, ou não fossem eles família e todos a necessitar de manter as aparências.

A tragédia familiar está na mesa ainda antes de qualquer aperitivo, de um lado Serge e Babette, do outro Paul e Marie Claire, no meio um crime cometido pelos filhos de ambos os casais. Como resolver a situação será um assunto tão quente quanto a discussão gastronómica.

“Se tivesse de definir felicidade, seria assim: a felicidade basta-se a si mesma, não precisa de testemunhas. «Todas as famílias se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira», é a primeira frase de Anna Karenina, de Tolstói. No máximo, acrescentaria que as famílias infelizes – e logo, dentro dessas famílias, os casais infelizes – nunca conseguem sê-lo sozinhas. Quanto mais testemunhas, melhor. A infelicidade procura sempre companhia, não suporta o silêncio…”

Eu diria até que esse silêncio é insuportável, e o é mais ainda, quando uma família tem entre si aspectos dos quais se quer desenvencilhar, sem que disso sobrem feridas irreparáveis. No entanto, a complexidade das relações pode moldá-los para a indiferença e a falsidade, desde que isso garanta que todos saem ilesos. Contudo, os acontecimentos ganham contornos espinhosos e se a certa altura todos os questionamentos indicam uma só saída, o autor trabalha-a de uma forma doentia, provocadora e controversa que propõe dar resposta à questão inicial: até onde iria para proteger a sua família?. 

“(…) Partilhávamos algo. Algo que antes não existia. É certo que não partilhávamos os três o mesmo, mas talvez não fosse necessário. Não era preciso saber tudo de todos. Os segredos não impedem a felicidade.”

Feitas as contas, pode sair sempre ao mesmo pagar a despesa, ainda assim há quem fique com uma parte mais pesada da factura, um lado mais invisível, no entanto, quem é que não esconde para si, algo seu mais negro.

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