«Nem todas as baleias voam» de Afonso Cruz :: Opinião

ABERTURA 

“A realidade é apenas uma fantasia exageradamente bem penteada, disse o escritor sérvio Goran Petrovic. O que me agrada particularmente nos blues é precisamente a recusa em pentear a realidade (…). Nos blues há uma denúncia constante da opressão, da injustiça, do racismo, da miséria.”

*

A genialidade, a desordem, a excitação e a entrega que visualizei neste vídeo de Glenn Gould foi exactamente o que fui sentido ao longo da leitura deste «Nem todas as baleias voam», por isso fez-me todo o sentido unir esta peça de Bach, tocada por um outro Gould ao Gould que Afonso Cruz criou, oferecendo ao leitor um enredo carregado de blues e de frases com dotes de pugilismo, tal como esta, presente na abertura deste livro, que eu diria que encerra em si mesmo um género de caixinha de sapatos para doentes terminais, coleccionadores de dores, mas também de muitos pequenos momentos de magia.

“Traço mapas com histórias obscuras, que iluminam becos, atalhos, lugares que ninguém se lembraria de percorrer.”

Desde cedo percebemos que há aqui uma ode ao belo dentro da maldade e do mal, aliás somos logo avisados para essa maneira sórdida e até perversa de alimentar esse engenho do mal, do medo e do aberrante como solução para nos mantermos à tona, à superfície da sobrevivência.

Parece estranho? Se não o fosse é que seria de estranhar. Estamos novamente perante um livro intenso e imenso de Afonso Cruz, onde as personagens e as histórias se cruzam de tal forma que, mesmo a muitos quilómetros de distância, ganham uma intimidade que chega a fazer doer.

“Depois abria os olhos, concentrava-se nas fotografias do atlas correspondentes ao território escolhido pela ponta do dedo (as fotografias ficavam sempre com a marca da unha do indicador, porque Tristan, ansioso e triste, deixava que alguma violência lhe saísse pelo dedo ao pressionar o lugar onde estaria a mãe.

(…)

– Onde estava ela?

– No mar.

Naquela manhã não lhe apeteciam frases compridas, foi só isso, mar, que é uma das palavras mais profundas e o lugar onde o dedo se espetara, uma marca de unha de indicador no meio da água.”

RELATÓRIO GOULD

Julgo que o leitor vai entrando lentamente e vai sendo atraído para esta espécie de improvisação que pauta a estratégia do autor em nos encher os sentidos e nos explorar as emoções, apelando à palavra escrita, à cantada ou até àquela que não se ouve, mas está lá, saindo pela ponta de uns dedos que exprimem afecto e sentimentos profundos, tocando melodias que são autênticos relatórios das marcas que o tempo deixa.

“(…) uma lesão incurável.

– Vês?

– Não há pomadas?

– Dizem que o tempo cura.

– O tempo é uma pomada?

– Uma espécie de pomada.

– Não tem funcionado, pois não?

– Não. É que também vamos criando afecto pela dor, ela diz-nos que estamos vivos (…)”

EPÍLOGO

“O corpo dela cheirava agora a sabão, mas não disfarçava o odor intenso a uma certa solidão que lhe dava um ar quase etéreo, de quem vive acima do lodo do quotidiano (…)”

É neste acima do lodo do quotidiano que a história vai avançando, orientando-se na geografia do que é estranho, mas se intromete nas vidas, pejadas de dor e de solidão, mas também abertas à esperança que desponta aqui ou ali, como uma música que passa por uma frincha, uma brecha e nos entra na cabeça e permite a redenção que todos procuramos, corrigindo diferenças e tratando-nos do coração.

MENSAGEM ARQUIVADA

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