“Sete Anos Bons” de Etgar Keret

 

 

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Diz-se que os homens não se medem aos palmos. Nem as histórias, nem os livros. Em literatura o mais importante não é o tamanho mas a história que se conta e o modo como é contada. Etgar Keret escreve contos, quase sempre de pequena dimensão, e fá-lo de forma absolutamente magistral. De facto, fá-lo tão bem que, ao acabar de ler uma das suas histórias, tem-se a sensação de que nada mais falta; quer dizer, a única coisa que falta é ler a seguinte, e mais outra e ainda mais outra…

Este é o segundo livro deste autor que leio e, sendo muito diferente de “Suddenly a knock on the door”, foi um reencontro delicioso com o humor peculiar e a ironia cáustica, ambos brilhantes e característicos da sua escrita. Sendo um livro autobiográfico, os textos nele contidos são episódios avulsos do quotidiano de Keret e da sua família, uma espécie de instantâneos das suas viagens e da vida contemporânea em Israel, pelo que não há aqui tanto espaço para os rasgos de imaginação mirabolante e absurda que habitualmente povoam as suas histórias. Contudo, o humor inteligente e mordaz, a resvalar para o “negro”, está bem patente neste livro, imprimindo-lhe a marca distintiva do seu autor e tornando-o uma leitura maravilhosamente divertida. No entanto, nada tem de alienação por conter também pistas para reflexões mais profundas, não só sobre a situação concreta de Israel mas também sobre o mundo e a sua História recente e, como não podia deixar de ser, sobre a vida, o amor e a morte. Sobre aquilo que faz de nós humanos. De resto, quantos livros são capazes de nos comover ao mesmo tempo que desencadeiam sorrisos ou gargalhadas, ou ainda, nos deixam mudos de espanto ante a imaginação completamente delirante e o sentido de humor fantástico do seu autor? Não parece fácil, pois não? Mas é precisamente isso que faz este autor fabuloso, por isso, enquanto Etgar Keret escrever, espero poder continuar a ler os seus enormes pequenos contos.

Excertos:

“Os atentados são sempre iguais. Que espécie de coisa original se pode dizer acerca de uma explosão e da morte sem sentido?”

“O “eu” que existe entre a descolagem e a aterragem é uma pessoa completamente diferente. O “eu” de voo é viciado em sumo de tomate, uma bebida que eu nunca sequer pensaria em tocar quando tenho os pés assentes na terra. No ar; esse “eu” consome avidamente comédias hollywoodianas idiotas numa tela do tamanho de uma hemorroida e folheia as páginas do catálogo de produtos guardado na bolsa do assento em frente dele, como se ele fosse uma versão atualizada e aumentada do Antigo Testamento.”

“Quando tento reconstruir aquelas histórias que o meu pai me contou há anos, dou-me conta de que, para além dos seus enredos fascinantes, elas destinavam-se a ensinar-me alguma coisa. Alguma coisa sobre a necessidade humana quase desesperada de encontrar algo de bom nos lugares mais improváveis. Alguma coisa sobre o desejo, não de embelezar a realidade, mas de nunca renunciar a procurar um ângulo capaz de colocar a fealdade sob uma luz melhor e de criar afeição e empatia por cada ruga e verruga do seu rosto marcado.”

“Por volta daqueles anos, o meu irmão começou a preocupar-se seriamente comigo. Lera no jornal Haaretz um artigo que dizia que as pessoas iletradas ram excluídas do mercado de trabalho, e a ideia de que aquele querido irmão de três anos viesse a ter dificuldades para arranjar emprego preocupava-o imenso. Daí que tenha começado a ensinar-me a ler e a escrever com uma técnica única a que ele chamou “o método da pastilha elástica”. Funcionava assim: o meu irmão apontava para uma palavra que eu tinha de ler em voz alta. Se eu lesse corretamente, ele dava-me uma pastilha elástica nova. Se eu errasse, ele colava-me a sua pastilha mastigada nos cabelos. O método funcionou às mil maravilhas, e aos quatro anos eu era o único miúdo no jardim infantil que sabia ler. Era também o único que, à primeira vista, parecia careca. Mas isso é outra história.”

“Assim vai o mundo. O escritor não o criou, mas está cá para dizer o que deve ser dito. Há uma linha que separa matar insetos de matar rãs e mesmo que o escritor a tenha ultrapassado alguma vez na sua vida, tem o dever de o dizer. (…) Não inventa um único sentimento ou pensamento – todos eles já existiam muito antes dele. Não é em nada melhor do que os seus leitores – por vezes é mesmo muito pior – e assim deve ser. Se o escritor fosse um anjo, o abismo que o separaria de nós seria tal que a sua escrita não seria suficientemente próxima de nós de modo a tocar-nos. Mas como ele está aqui, ao nosso lado, enterrado até ao pescoço na lama e na imundície, é ele, melhor do que ninguém, que pode partilhar connosco tudo o que lhe passa pelo espírito, nas zonas iluminadas e, em especial, nos recônditos escuros. Não nos conduzirá à Terra prometida, não trará a paz ao mundo, nem curará os doentes. Mas se fizer o seu trabalho como deve ser, algumas rãs virtuais poderão viver. Quanto aos insetos, lamento dizer, terão de se desenrascar sozinhos.”

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