“Homens imprudentemente poéticos” de Valter Hugo Mãe

 

 

 

vhm“(…) Trago ao Universo um novo Universo

Porque trago ao Universo ele-próprio (…)

Alberto Caeiro in “O guardador de rebanhos” (XLVI)

 

As premissas básicas são simples. São, afinal, traços comuns a todas as existências: amor, medo, violência, ódio, morte, dor, felicidade, aceitação e, eventualmente, redenção. Tudo com o Japão como pano de fundo e tudo parecendo simples, enganadoramente simples, pela familiaridade confortável das palavras em língua materna. Contudo, a magnificência da escrita obriga a abrandar o ritmo da leitura, lê-se como que encerrado numa bolha suspensa na trama do espaço-tempo, ou seja, num tempo diferente, quase suspenso, escoando-se em instantes deliciosamente lentos. Tal como um origami, em que objectos delicados, belos e complexos, emergem a partir de um simples quadrado de papel colorido, assim Valter Hugo Mãe construiu este romance: pegando nas palavras simples e dobrando-lhes os cantos, vincando-as e reinventando os seus ângulos. Fica-se então, pasmada, enredada na beleza e na profundidade do que está escrito, lê-se e relê-se, uma e outra vez, é-se a agulha do gira-discos sobre um disco riscado.

Em “Homens imprudentemente poéticos” Itaro, prisioneiro do seu ódio pelo vizinho e da dor da ausência da irmã, aceita confrontar-se com a escuridão, com a sua sombra, e consegue enfim, transcender-se e atingir o entendimento que procurava. Ao abraçar o seu medo, o seu inimigo invisível, emerge do poço pacificado e com um talento renovado para a arte de fazer de leques cuja beleza excepcional  deslumbra quem os contempla. Olhar para os abismos interiores, apesar de penoso, torna-se necessário porque o conhecimento da sombra, para além de uma medida mais precisa de si mesmo, oferece também uma compreensão mais profunda do lugar do ser humano na natureza, no cosmos em que vivemos. Aceitando as sombras apreciamos melhor a luz, entrevemos enfim uma certa paz, uma certa redenção.

Este é um livro com uma personalidade muito própria, deixa-se ler apenas ao seu próprio ritmo, deixa-se perceber aos poucos, obrigando assim a uma entrega completa à sua leitura. Mas vale bem a pena. Muito.

Uma nota final: Muito obrigada Valter Hugo Mãe por não adoptar a chamada nova grafia do português!

Excertos:

“Outra vez Itaro desfez um besouro no chão e o observou. Melhor o desfez, correndo a pedra para trás e para diante a estender a cor que a mínima humidade do bicho deitava. Bateu com a pedra, e havia uma raiva crescente, uma incontrolável vontade de ferir algo que se ausentava da realidade tangível do mundo. A senhora Kame lhe tomou o pulso, para que aceitasse a medida da morte. O besouro nunca morreria mais do já morrera, e as ideias nunca terminariam à força de um golpe, por mais desaustinado que fosse desferido.”

“O amor, na perda, era tentacular. Uma criatura a expandir, gorda, gorda, gorda. Até tudo e volta ser esse amor sem mais correspondência, sem companhia, sem cura. Que humilhante a solidão do amante. O oleiro disse assim: que humilhante o coração que sobra. O amor deixado sozinho é uma condição doente.”

“Sem tangibilidade, ver humilhava a memória, que nunca recuperaria a completude de coisa alguma. A memória era o resto da realidade. Uma sobra que mutava para a ilusão com facilidade.”

“Ela disse: os meus brinquedos são as palavras. Persigo o encantamento de que são capazes.”

“Itaro descia sobre os leques igual a um animal e suas crias. Desassombrado, subitamente pintava perfeitos bocados do mundo e se deslumbrava. Eram os seus últimos olhos, dizia, como se a cada dia usasse olhos diferentes até ter de deixar de os usar. E quem ocorria de comtemplar os seus trabalhos igualmente pasmava, porque eram deveras instruções de perfeição, lições de como um pássaro devia ser se algum pássaro alguma vez tivesse dúvidas. As imagens de Itaro enterneciam a natureza.”

“E Itaro pintava, demorava-se absurdamente a ver cada leque, e subitamente regressava à necessidade de pintar. Era inesgotável. Ele dizia. Que o deslumbre nunca se eternizava.”

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