«Cheio de Vida» de John Fante :: Opinião

Apreciem o arranque deste relato:

“Era uma casa grande porque éramos pessoas com planos em grande. O primeiro já lá estava, um monte na barriga dela, uma coisa que se mexia com movimentos intensos, deslizando e contorcendo-se como um novelo de serpentes. (…) Tinha a coisa dentro de si e estava alheada, altiva, com uma aura de beatitude.

Todavia, eu não gostava da protuberância.”

É isso mesmo, beatitude, humor, algum alheamento e muitos planos. É assim este «Cheio de Vida» de John Fante que mais uma vez me conquistou como aquando da leitura de «A confraria do vinho». Com uma linha cronológica mais firme, vamos acompanhando as peripécias da evolução da protuberância de Joyce juntamente com o marido, o próprio Fante. No entanto, para o quadro familiar ficar completo precisamos que Nick Fante salte para cena e o autor não deixou o pai ficar de fora. Nem ele, nem as suas manias que conferem a atribulação necessária ao seio familiar. Se o leitor julgava que as térmitas iriam ser o pior problemas deste casal com uma casa grande, desengane-se.

“Eles estavam arregimentados contra mim, e havia um muro a separar-nos, uma lareira.”

 capa-fante

“- Então? – disse ela.

– Quero falar contigo.

– A sim?

Começou a escovar o cabelo.

– Quero que te deixes de parvoíces. Nada de pegar em pesos. Nada de partir pedras.

– É tudo?

Queria abaná-la.

– Cheguei a uma decisão. Pára com isso ou saio desta casa.

Ela esboçou um sorriso e sacudiu o cabelo molhado.

– Podes sair a qualquer altura.

– É essa a tua decisão?

– Sim, querido.

Carrancudo, saí do carro. A escolha tinha sido dela. Fora ela a decidir. Mas não saí. Não se pode deixá-las quando estão naquele estado.”

O humor e a emoção são uma constante em todo o livro, sem nunca perder o traço da simplicidade que caracteriza a sua escrita, no entanto, Fante mantêm a tensão e a intimidade, abordando as alterações na vida de um casal prestes a ter um filho. As dúvidas, os medos, as inseguranças e claro, o próprio conceito de família que testam a boa saúde de qualquer relação.

“Como se fosse uma pedra, a criança pôs-se entre nós.”

O mito do american way of life choca, recorrentemente, com as raízes italianas da família Fante, especialmente quando esta nova vida traz consigo o chamamento religioso, ainda assim quando as situações se tornam dignas de cada um rugir para seu lado, os diálogos formam como que um rodopio, revelando toda a boa disposição e esperança que este livro encerra.

“A Mamã sorriu.

– Porque salpiquei a vossa cama com sal.

O Papá riu-se.

– Pois foi. Sal na cama. Fui eu que dei a ordem.

Aquilo era muito irritante. Presunçosos, ficavam com os louros de tudo.”

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