“Human Acts” de Han Kang

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Depois de ter lido “A Vegetariana” fiquei com uma curiosidade imensa sobre a obra de Han Kang. A forma como a autora conseguiu exprimir emoções fortíssimas através de uma escrita depurada, paradoxalmente crua e delicada, impressionou-me muitíssimo e gerou ganas de voltar a lê-la. E assim cheguei a “Human Acts”, ainda não publicado em Portugal. Embora não seja habitual, creio que se impõe agora um parêntesis sobre o facto histórico que constitui o fulcro deste romance. Após o final da Guerra da Coreia em 1953 e até 1987, a Coreia do Sul foi dominada por um regime ditatorial em que os direitos humanos foram, como é habitual nestas situações, ignorados e violados. Estava-se em plena Guerra Fria e a península coreana era dos principais palcos da luta pela supremacia mundial em que se envolveram os Estados Unidos da América e a União Soviética. Por isso há quem diga que na génese do chamado Levantamento ou Massacre de Gwangju terá havido influência da vizinha Coreia do Norte, ontem como hoje, um dos regimes mais brutais e repressivos do nosso planeta. Talvez tenha havido; não sei se foi assim pois não sou historiadora nem especialista em assuntos asiáticos. Tanto quanto pude apurar através de uma pesquisa breve, após o assassinato do general Park Chung-hee, que tinha chegado ao poder em 1961 através de um golpe de estado, no final de 1979, surgiram em vários pontos do país movimentos pró-democracia, envolvendo sobretudo estudantes universitários e sindicatos ligados a trabalhadores fabris. Contudo, depois da ascensão ao poder do General Chun Doo-hwan, a Lei Marcial foi imposta em todo o país e o regime tornou-se ainda mais repressivo. Em 18 de Maio de 1980, na sequência de um protesto de estudantes contra o fecho da Universidade de Jeonnam, gerou-se um movimento de contestação, inicialmente totalmente pacífico, envolvendo também estudantes de níveis de ensino não superior bem como trabalhadores das fábricas, activistas pró-democracia e outros cidadãos de Gwangju. Chun reage a esta situação enviando tropas do exército e pára-quedistas para dispersar as manifestações. Os militares carregaram sobre as pessoas, usando cassetetes, baionetas e disparando indiscriminadamente, tendo havido também “snipers” nos telhados para atingir pessoas que tentavam fugir. O número exacto de vítimas é desconhecido pois muitos corpos foram levados pelos militares e queimados ou enterrados em valas comuns em locais desconhecidos. Em resposta, os cidadãos da cidade invadiram esquadras da polícia e arsenais, obtendo assim as armas com que fizeram frente ao exército, o qual se retirou para a periferia da cidade a 21 de Maio. Durante alguns dias houve uma calma relativa mas na madrugada de 27 de Maio, os militares entraram na cidade com tanques e helicópteros, lançando assim uma ofensiva que esmagou o movimento e colocou Gwangju definitivamente sob seu controlo. Na sequência destes acontecimentos milhares de pessoas foram presas e barbaramente torturadas pelo regime de Chun. Hoje muitos consideram que a tragédia de Gwangju foi o início do caminho rumo à democratização da Coreia do Sul, a qual veio a tornar-se realidade em 1987.

É quase absurdo dizer que este é um romance belíssimo porque o seu foco é uma tragédia imensa cujos ecos ainda hoje se fazem sentir na sociedade sul-coreana. Não obstante, este é um livro de uma beleza e de uma força impressionantes. Dividido em sete capítulos diferentes, a narrativa é-nos apresentada por sete personagens diferentes: um rapaz de 15 anos à procura de um amigo desaparecido, um fantasma de um rapaz assassinado, uma editora encarregue de levar os manuscritos para visto prévio da censura, um preso político, uma antiga trabalhadora fabril também presa política, a mãe de um rapaz assassinado e o(a) escritor(a). Han Kang não tem contemplações, escreve de forma absolutamente clara, sem eufemismos nem apaziguamentos de linguagem e no entanto, frequentemente poética. Retrata muito claramente violência extrema que esteve em causa, a matança indiscriminada de civis desarmados e o sofrimento atroz dos sobreviventes, a braços com sentimentos de culpa e stress pós-traumático, bem como das famílias a quem foi negada a possibilidade de realizar os rituais fúnebres aos seus mortos, muitos dos quais permanecem ainda hoje “desaparecidos”. E emociona profundamente. Creio ser impossível ficar indiferente a este livro. É um testemunho poderoso e inquietante que me deixou com estas perguntas na cabeça: O que são os “actos humanos”? A violência fria e atroz dos agressores? Ou a coragem, a resistência e a força dos cidadãos de Gwangju? Se calhar ambos; pena é que a História do Homo sapiens sapiens (nome presunçoso e mentiroso) continue a ser um rol de sangue derramado com alguns laivos de compaixão e esperança, aqui e ali.

Sinopse:

Gwangju, South Korea, 1980. In the wake of a viciously suppressed student uprising, a boy searches for his friend’s corpse, a consciousness searches for its abandoned body, and a brutalised country searches for a voice. In a sequence of interconnected chapters the victims and the bereaved encounter censorship, denial, forgiveness and the echoing agony of the original trauma. Human Acts is a universal book, utterly modern and profoundly timeless. Already a controversial bestseller and award-winning book in Korea, it confirms Han Kang as a writer of immense importance.

 

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