“Adoração” de Cristina Drios

 

 

 

adoracao

“(…) nessas catorze majestades, que combinam o raro prodígio das trevas de que são feitas com a paz que a sua contemplação oferece, como se a precipitação de toda a angústia que cabe no coração de um homem tivesse como resultado a conquista da felicidade por parte de quem a contempla. (…) O que pintou Rothko em The Houston Chapel? Talvez os mistérios de um deus severo: a dor psíquica transmutada em beleza.”

Ricardo Menéndez Salmón in “A Luz é Mais Antiga que o Amor”

Primeiras impressões: palavras iluminando uma primeira página, engendrando desde logo o encantamento, e uma capa belíssima. Superficialidades, talvez. Ou talvez não. “Chiaroscuro”; a escuridão parindo luz. Luz apartando a escuridão. A técnica do mestre Caravaggio parece a metáfora perfeita para ilustrar o ser humano em todo o seu esplendor e em toda a sua miséria; a luta intestina e interminável dos impulsos, dos desejos, das emoções e das razões. Cristina Drios conduz-nos de forma exímia pelos meandros de uma narrativa imaginativa dividida em três tempos diferentes, feita de segredos inconfessáveis, de mistérios adensando-se em frases perfeitas. Amiúde, passagens de uma beleza e de uma lucidez espantosas, espelhos reflectindo as profundezas da essência humana, contrapartida escrita das imagens excessivas, tremendas, atrozmente belas pintadas pelo mestre italiano. Não vou aqui esmiuçar detalhes da história, isso seria estragar o prazer da leitura a potenciais leitores. Digo apenas que li este romance rapidamente por ter sido difícil lê-lo mais devagar, porque não me apetecia deixar as suas páginas preenchidas pela luz das palavras da Cristina e porque tinha de saber como é que tudo aquilo se resolveria no fim. O resultado disto é que me vejo a reler este “Adoração” um qualquer destes dias para poder saboreá-lo com mais calma e assim prolongar o prazer da leitura em redor da jovem siciliana do final do século XX que descobre um facto terrível, do fantástico Duque de Nottempo, obcecado com a obra de Caravaggio, e da mulher encurralada numa gaiola dourada. Não vale a pena dizer mais nada. A não ser que este “Adoração” merece, sem dúvida, ser lido. Muito mais do que estas impressões apressadas de uma leitora impaciente. Apenas uma achega, caso não conheçam a obra de Caravaggio procurem umas imagens e contemplem-nas. Assim, este texto fará, talvez, algum sentido.

Excertos:

“Quando as ruas se estreitaram num emaranhado confuso, pendiam, de cada lado, edifícios oitocentistas, velhas senhoras aristocráticas que havia muito tinham penhorado as jóias mas que apesar dos vestidos coçados e da pele enrugada no pescoço, esticavam a cabeça com orgulho. Os pombos compraziam-se em fazer-lhes ninhos nos bigudis enquanto o sol espreitava pelas nesgas das claraboias partidas. Nesses palácios escalavrados viviam agora famílias numerosas. Ocupavam os pisos até às águas-furtadas, as varandas e os passeios com a vozearia e a roupa batida a vento nos estendais. Os velhos passavam os dias a jogar dominó e a dormitar estendidos nas lonas das cadeiras, revezando-se nessas tarefas cansativas, enquanto as crianças corriam atrás de uma bola, entre duas balizas que eram muitas vezes as pernas dos avós. Enquanto isso, as mulheres lavavam e estendiam a roupa, conversavam entre elas do terceiro andar para o rés-do-chão, acendiam o lume no fogareiro e ralhavam ao mesmo tempo com os velhos e as crianças.”

“Ao contrário do que acontece com outras obras, não somos nós que olhamos, são as personagens que nos olham. Admirai uma dessas telas e vereis que sois observado, de outra dimensão, ao mesmo tempo íntima e intangível, porque, na verdade, descobrireis que é aí, no território da genialidade e do fracasso, que Deus espreita. Quanto a mim, Matteo Mattei, duque de Nottetempo, não terei o perdão de Deus nem o dos homens: sou apenas mais uma obra do primeiro, rudimentar e imperfeita, que nada deixa aos segundos.”

“Dizeis que amais a arte, a pintura e a música, a representação e a dança, e porém tudo isso visto de perto é tão insípido como um gole de água morna ou um insecto esmagado. Preferis sangue, suor, lágrimas e dor aos risos, à alegria e à inocência. Achais que o sublime não chega ao pé do espectáculo do escabroso humano. Porque, como eu, sois feitos por dentro de vísceras mais do que sinceridade, de carne mais do que castidade e de sangue mais do que pureza. Na verdade sois feitos daquilo que o Caravaggio nos seus quadros pinta, sois feito de luz e sombra, de vida e de morte, de culpa e perdão.”

“Nunca se sabe o que pode subir à superfície quando se remexe no lodo de águas paradas: nada há mais perigosamente traiçoeiro do que o socrático “conhece-te a ti mesmo”. Deixai-vos, pois, ficar a boiar no conforto da superfície de vós mesmos. Não queirais saber qual é a criatura ignóbil, o pequeno monstro, que provavelmente se vos deparará quando imprudentemente abrirdes a vossa própria caixa de Pandora.”

“Para pintar o ser humano é preciso conhecê-lo. (…) Há que conhecê-los vivos, ardentes, palpitantes, em pranto, em suor, nus por fora e por dentro. Há que conhecer-lhes os torpores e as fúrias, a pequenez e a grandeza das almas que os habitam, a sua intrínseca, mísera e inútil humanidade. Aquilo que sentem e pensam no amor, quando adoecem, sofrem e se minam, quando suspiram e se agitam em estertores antes de agonizarem, expirarem e morrerem.”

“A grandeza de um artista mede-se pela sombra que a sua obra deita sobre todas as coisas. A sombra da obra do Caravaggio excede a altura das sombras do maior obelisco, do mais alto pináculo de catedral, das labaredas das fogueiras nas praças públicas, ombreando com a das montanhas, o vôo dos pássaros migratórios, as nuvens nos céus. Mede-se com todas as coisas do Bem, da obra humana e da natureza, porque com as coisas do Mal, apenas o Diabo e os seus discípulos se podem medir. Todavia, não está a salvo da mesquinhez e da maledicência, da zombaria e da inveja, baixezas que rastejam de ventre colado ao chão e raramente levantam a cabeça e os olhos. Não está a salvo dos medíocres. Nós, comuns mortais, sem obra nem valia, medimo-nos apenas pela largueza da nossa sombra na terra, a do nosso carácter. De certa forma, isso salvaguarda-nos.”

 

 

 

 

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