“A Vegetariana” de Han Kang

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“As profundezas do mar estão livres de todo o mal, são apenas vida e morte, enquanto haveria certamente uma necessidade de se benzerem as linhas, não apenas uma, mas pelo menos dez mil vezes, se tivéssemos de as enviar para as profundezas da alma humana.”

Jón Kalman Stefánsson in “Paraíso e Inferno”

 

Dividida em três partes, a história trágica de Yeong-hye, a vegetariana, vai-se desvendando pouco a pouco, subtilmente, apesar da clareza directa e brutal da escrita de Han Kang. Raras vezes se encontram passagens onde a protagonista exprime os seus pensamentos e emoções; quase tudo é-nos contado através dos olhos de terceiros, como se fosse um documentário, sobre algum acontecimento longínquo ou alguma pessoa já falecida, integralmente constituído por testemunhos daqueles que estiveram de algum modo envolvidos sem estarem no fulcro da narrativa. Neste caso essas pessoas são o marido, o cunhado e a irmã de Yeong-hye e, através dos seus relatos, vai sendo construindo uma espécie de puzzle incompleto de fragmentos do percurso desta. Isto porque os narradores concentram-se essencialmente nas consequências da decisão da protagonista para si próprios, embora se note um certo gradiente nas atitudes: o marido mostra-se totalmente incapaz de qualquer empatia ou compreensão enquanto que o cunhado, dominado pela sua obsessão egoísta camuflada de interesse artístico, tenta perceber o que se está a passar com ela, e a irmã, atormentada pela culpa associada a acontecimentos da infância e adolescência, faz tudo o que pode para a salvar, expressando assim o seu amor por Yeong-hye. Esta permanece quase sem voz ao longo do romance, como se fosse esse o preço a pagar por se ter atrevido a romper a “normalidade” ao recusar comer alimentos de origem animal.

Este é um livro-cebola, feito de camadas e propenso a leituras diversas, suscitando reflexões sobre a violência inerente à vida nas sociedades humanas, sobre a inevitabilidade ou não da sua existência e, claro, sobre a forma como são vistos os que se atrevem a desafiar os padrões de comportamento instituídos. Mas também toca as fronteiras entre consciente e subconsciente e entre sanidade e loucura; entre os perigos de trazer à consciência as pulsões que habitam as profundezas da mente humana e a vontade para as dominar ou para se deixar dominar por elas. Tal como a casca da cebola guarda o segredo dos seus sucos capazes de causar lágrimas, à superfície tudo parecia estar bem, “normal” no quotidiano de Yeong-hye até ao momento do sonho tenebroso que a impele a rejeitar a violência e a leva ao ponto de desejar, literalmente, converter-se numa árvore. Paradoxalmente, o pacifismo subjacente a esta decisão desencadeia reacções violentas tanto do marido como do pai as quais terão consequências dramáticas, gerando assim um sofrimento intenso, as “lágrimas da cebola”, na protagonista. Esta é levada a atravessar o limiar da sanidade pois, ao escolher viver sem exercer qualquer tipo de violência, acaba por atentar contra a sua própria integridade física, rejeitando claramente uma sociedade onde não lhe é permitido viver de acordo com as suas opções. Deste modo, acaba por tornar-se num algoz de si própria.

Na prosa de Han Kang não há eufemismos nem qualquer tipo de contemporizações com excessos de linguagem que possam desviar a atenção do leitor daquilo que ela pretende contar. Contudo, apesar disto, consegue inquietar e emocionar quem lê, ao ponto de ser difícil parar de ler por mais dura que seja a narrativa.

Para terminar, nem só de violência é feito este livro; também há notas de ternura, nomeadamente entre In-hye e o filho e entre as duas irmãs, relembrando que nem tudo são trevas na profundidade do ser humano. Além disso, apesar da componente doentiamente obsessiva do interesse do cunhado por Yeong-hye, o erotismo da relação entre ambos é delicado e interessante, com a sua ligação directa às flores em cuja beleza nos fixamos, esquecendo que elas são, em essência, os órgãos sexuais das plantas.

Excertos:

“Como era possível que fosse tão egoísta? Fixei os seus olhos baixos, a sua expressão calma de autodomínio. Só a ideia de que ela podia ter este lado egoísta, de alguém que fazia o que lhe apetecia, era já inconcebível. Quem diria ela podia ser tão insensata?”

“O frio daquele inverno que estava a chegar ao fim teimava em manter-se, e a minha mulher parecia congelada, ali parada no parque de estacionamento com um casaco leve de primavera. Não tinha dito uma única palavra durante todo o caminho, mas convenci-me de que isso não queria dizer que houvesse qualquer problema. Não há mal nenhum em uma mulher estar calada; aliás, não é isso mesmo que tradicionalmente se espera delas – que sejam sóbrias e recatadas?”

“Agora só posso confiar nos meus seios. Gosto deles, não podem matar nada. Mão, pé, língua, olhar – tudo armas, sei que nada está a salvo delas. Mas os meus seios, não. Com os meus seios redondos está tudo bem. Por enquanto. Então, porque será que continuam a encolher? Já nem sequer são redondos. Porquê? Por que motivo estarei a mudar tanto? Porque está todo o meu corpo a ficar aguçado – será que vou rasgar?”

“A sua voz não tinha peso; as suas palavras pareciam penas. (…) Era o tom calmo de alguém que não pertencia a lado nenhum, uma pessoa que passara para uma terra de ninguém entre estados de alma.”

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